terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Atenção:

          Como vocês já devem ter notado (ou não, sei lá), faz algum tempo que não aparecemos por aqui nem atualizamos com frequência. Isso é devido a nossa mudança de blog. Agora nós somos Devaneios Tolos. Estamos transferindo alguns dos posts do I Feel It All para o novo blog, mas a maioria do que será produzido a partir de agora, é totalmente nova. Se quiser continuar a acompanhar/seguir, lembre-se que não usaremos mais este endereço. Para os novos followers, sejam bem-vindos!

Novo twitter do blog: @stultamusings.

P.S.: Pra quem estiver se perguntando por quê, fique a vontade para falar conosco no Formspring (: 

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Me deixa.

         Me deixa te levar pra casa, te abraçar, te consolar, te dizer o que ninguém tem coragem de dizer, te guiar, sentir teu cheiro de café quente, me deixa cuidar de ti. Me deixa, por um mero minuto, esquecer de tudo o que houve e sonhar contigo sem sentir culpa, sem desejar profundamente que isso não aconteça outra vez. 
          Eu me enganei. Não que eu tenha achado que seria fácil te esquecer, mas eu não imaginava que fosse durar tanto. Eu me enganei nisso assim como me enganei em relação a ti. Sabe, em tudo em ti. Não é aquele velho blá blá blá adolescente idiota: "Eu achava que você fosse diferente". Porque eu não achei. Não achei, assim como não arrisquei, assim como não sorri enquanto era tempo, assim como não corri atrás quando deveria, assim como não te deixei consertar meu coração quebrado quando tu estavas disposto.
          Entendes o que eu quero dizer? Eu não culpo só a ti. Talvez eu culpe mais a ti para não ter que me torturar mais do que é normal. Eu fiz tudo isso em demasia e fiz tarde demais. E tu sabes bem que eu não creio que os meios não justifiquem os fins. Talvez nem todas as tuas mentiras tenham sido o melhor, mas a maioria foi com as melhores intenções. Talvez eu só precisasse de tempo pra notar. Assim como eu precisei de tempo para notar que, não importa o que aconteceu antes e não importa o que ainda acontecerá, eu o amarei. Talvez não seu eu de agora, mas eu sempre amarei o que você significou e sempre reconhecerei o que tu fizestes por mim. Mesmo que eu não tenha tido chances pra retribuir. 

Nayane. 

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Cansei.

          Eu podia ter desistido de ti. Há muito tempo. Mas, presta atenção: Eu tô aqui. Tô aqui até agora. Você só precisa abrir o olho e notar isso. E notar também o que tu tás perdendo. Tu podes não notar isso agora, mas estás SIM perdendo muito. Estás abrindo mão de alguém que teve a seu lado por toda a vida e que te conhece melhor do que tu mesmo, por simplesmente não enxergar. Enxerga. Enxerga que tu precisas correr atrás, que tu precisas parar de ser orgulhoso, que tu precisas parar de fazer estupidez atrás de estupidez e de ir aos pouquinhos machucando a tua vida e as pessoas que deveriam ser importantes nela.
          Me julgo meio babaca por ainda não ter entrego os pontos. Por ter me tornado vulnerável a qualquer tipo de apego e ao mesmo tempo por ainda me importar. E, cara, é isso que torna tudo tão difícil. Querer falar pra mim mesma que não, eu não dou a mínima, e me sentir como se estivesse enganando a um velho amigo com isso. E sabe o que é ainda mais irônico? Que eu cuidei de ti. Que eu estive ali. Quando tu precisastes, quando tu quisestes. Quando a tua vida despencava, eu te tirei de lá, eu te salvei, eu te mostrei o melhor caminho. Foi o meu abraço que te consolou. E agora tu me ignoras, tu me esqueces, tu esqueces de reconhecer isso. Por mais que tu digas que não mudastes, eu sinto. Eu sinto tanto que fica cada vez mais difícil de acreditar. E sabe por que eu sinto tanto? Porquê eu te conheço. Eu conheço teu velho eu, que ainda reside em algum lugar bem fundo na tua alma. E eu sinto falta dele.

Nayane.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Adorável velha vida.

         Não lembrava de quando tinha sido sua última grande mudança. Os últimos meses tinham sido atordoados, com muita tensão e pouco movimento. A vida era sempre a mesma, sempre jogada dentro de uma rotina chata, sem novidades, sem alegrias. Aquele era, especialmente, um dia ruim. Suas pernas latejavam por causa dos exercícios de mais cedo, sua cabeça doía um pouco pela quantidade de números que havia estudado e sua mente era levada pra muito, muito longe dali. Levada por velhas lembranças, compostas de momentos maravilhosos. Mas ainda eram velhos.
         Não lembrava de quando tinha deixado tudo aquilo para trás. Não lembrava de quando tudo tinha dado errado. A melancolia parecia rondar seus pensamentos, e ele não podia deixar de se impressionar um pouco com a vivacidade em que estes estavam. De repente bateu-lhe um aperto no peito. Não sabia se era dor. Não deveria poder ser dor. Não eram más lembranças.
             Sua cabeça pesou um pouco mais sobre seu corpo doído. Um gostinho de angústia – oh, sim, esse ele sabia identificar – plantou-se sobre ele e seu coração ficou diferente. Mais mole, mais carente. Tão doído quanto o corpo, tão cansado quanto a mente. Daí ficou fácil de descobrir. Sentia saudade.
              Sentia saudade daquela época pelo quão bem o fizera. Por ela ter sido a responsável por absolutamente todos os seus grandes erros, porém consecutivamente por também ter sido a responsável sobre a construção de seu caráter. Sentia falta daquela animação, de quando cada dia era um novo dia e todo amanhecer parecia trazer uma nova energia, uma nova esperança, um novo algo para ele ter com o quê ficar determinado.
            Sentia falta dela – da pele macia, das vinte e duas pintas em cada braço, do ruborzinho em seu rosto maravilhosamente esculpido que subia toda a vez que ele a abraçava. Sentia falta da garota que o renovara, do ser humano maravilhoso que o fez enxergar a vida de outra maneira. Sentia falta de ser irresponsável, de fazer o que desse na telha, de passar as vinte e quatro horas arranjando um novo motivo para se divertir.
              Queria ter alguém pra cuidar de novo. Alguém que pudesse amar como a si mesmo e que o amasse tanto quanto. Alguém que o presenteasse com fotos suas que nem sabia que existiam. Alguém para proteger como uma raríssima jóia e para dar-lhe conselhos como o único e maior porto seguro que era. Alguém pra abraçar no frio, pra compartilhar com ele suas manias mais estranhas e olhá-lo com censura quando bebesse demais.
            Um cachorro latiu em algum lugar, despertando-o do frenesi da nostalgia. Esfregou os olhos. Eram dez pras duas. Precisava trabalhar.

Nayane.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Silepse da inverdade.

          Mentiras. É tudo o que as pessoas são. Grandes e patéticas mentiras. Elas vivem e matam por isso. Descartam tudo o que não conseguem explicar, desistem de acreditar em tudo o que não é a alternativa mais fácil. Estão o tempo todo enganando alguém. Seja pra terem algo a mais com o que se agarrem, seja pra fazerem as pessoas crerem na mesma baboseira que seus corações frágeis e tolos estão propícios a acompanharem.
        Por que não querem se acrescentar, acreditarem no certo e não no prático, viverem por conhecimento e não por melhoras? Me diga, meu Deus, por que raios se esconder de si mesmo? Por que raios as pessoas – e todos sabemos que quando eu digo “as pessoas”, infelizmente utilizo o mesmo tipo de silepse do “todos sabemos” – teimam em querer fingir que está tudo bem quando não está, sorrir quando precisam chorar, fugir de problemas com coisas banais numa fútil esperança de torná-los menos desagradáveis?
          OK. Isso é humano. É natural. É uma forma de aliviar a tensão. Mas sabe o que realmente me espanta? É que, depois de um certo ponto, elas começam a tentarem mentir pra si mesmas, pra aliviarem a tensão interior. E isso até que seria aceitável, se não fosse doentio. Ninguém pode mudar o seu passado. Ninguém pode esquecer tudo o que viveu.
           Lembranças não são como argila. Não é algo que você possa moldar e depois jogar fora se não ficar legal. Elas são a vida. Os bens mais preciosos durante, e tudo o que restará depois. 

Nayane.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Intenso como eu nunca quis.

          É trabalhoso sentir tua falta. Não gosto de admitir, mas é. É trabalhoso pensar em ti, todos os dias, porque por vezes eu preciso me esforçar um pouco para fazer com que memórias tuas não sejam meras memórias. É que por vezes, sentir tua falta é como sentir falta de uma grande parte de mim que há muito se foi. E eu já não tenho mais de onde tirar memórias. Tu não me destes tantos sorrisos quanto eu pensei que tivesses me dado. Tu não me desses tanta felicidade quanto eu imaginei, também. Se tivesses dado, eu não me lembraria? Ou será que eu apenas cansei de relembrar?
          Tudo era tão bom quando era contigo. Balançar um pouco a rotina, fugir um pouco da linha, acreditar um pouco no que parecia melhor, apesar de não ser. Deve ser por isso, acima de tudo, que eu sinto a tua falta. Eu sinto falta de tudo o que tu significastes pra mim. De tudo que tu marcastes na minha vida, de tudo o que eu senti por ti. Sinto falta de te amar. E eu te amei como amo cada um dos meus personagens preferidos de cada um dos meus livros preferidos. Te amei e me agarrei a esse sentimento como se ele pudesse me salvar de todos os perigos e me livrar de todos os males. 

Nayane.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Fragilidade que vem das flores.

       Tudo parecia um pouco falho ao seu redor. Como se tudo, por mais perfeito que parecesse, fosse completamente vulnerável e defeituoso. Era mais ou menos como se sentia, na verdade. Feliz e esbanjando sorrisos superficiais, por fora, mas por dentro sentindo-se como se um grande furacão tivesse arrasado a metade incompleta de si. A metade responsável por fazê-la sentir-se assim na maior parte do tempo.
          Era como se a vida tivesse a única função de fazê-la sentir-se vazia, com um grande vão onde deveria estar seu coração. Ela sabia que, enquanto caminhava, as flores continuavam vivas, perfumadas e coloridas, mas algo em seu eu mais íntimo a dizia que estas recolhiam-se no momento seguinte a sua passagem.

Nayane. 

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Para Maria da Graça.


"Agora, que chegaste à idade avançada de 15 anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas.
            Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.
         Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca.
         Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: "Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?"
         Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. "Quem sou eu no mundo?" Essa indagação perplexa é o lugar comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.
         A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: "Estou tão cansada de estar aqui sozinha!" O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas, nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados conseguem abrir uma porta bem fechada e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece geralmente às pessoas que comem bolo.
Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser séria ou profunda.
A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: "Oh, I beg your pardon!” Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo para a tua sabedoria de bolso: se gostas de gato; experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: "Gostarias de gatos se fosses eu?”.
Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os corredores chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: "A corrida terminou! mas quem ganhou?" É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não conseguirá saber quem venceu. Para o bolso: se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde queres, ganhaste.
Disse o ratinho: "Minha história é longa e triste!" Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: "Minha vida daria um romance". Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois um romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: "Minha vida daria um romance!" Sobretudo aos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: "Devo estar diminuindo de novo". Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.
E escuta esta parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida toda uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. Mas como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom-humor. Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de sofrimento ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago,  pensava: "Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas".
Conclusão: a própria dor tem a sua medida. É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça."

(Paulo Mendes Campos).

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Lovesick.

Bastaram segundos para que milhares de pensamentos acolhedores passassem pela mente dela. Por um breve momento, ela não soube o que dizer, ou como agir. Só conseguia sentir os batimentos de seu coração, levados no ritmo de uma sensação tão forte e deliciosa que daria uma canção.
Ela reconheceria aquele toque entre milhões. Sentira tanta falta dele! Tanta saudade daquele abraço apertado, daquele seu jeito macio de dizer o que ela sabia ser mentira, mas que gostava de acreditar. Podia ouvir o embaralho da sua mente, a contradição que virara.
Tudo o que não queria era afastar-se e sorrir simpaticamente antes de continuar caminhando, mas foi exatamente o que fez, mesmo com sua cabeça a mil por hora. Não podia mentir pra si mesma a ponto de falar-se que não tinha sido bom. Tinha sido muito mais do que isso. Tinham sido os dez segundos mais prazerosos que tivera em tempos, apesar de terem sido só dez segundos. Iria pra casa com o sabor da felicidade instantânea em seu coração, o sorriso automático nos lábios todas as vezes que, mais tarde, lembrasse daquele momento.
Porque aquele momento, mais do que nada nos últimos meses, tinha trazido à tona todas as lembranças boas, todas as recordações e sorrisos maravilhosos que estavam escondidos numa relação antiga, acabada simplesmente por ser um elo tão traiçoeiro.

Nayane.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Restrições e desilusões.

          Sabe que eu me acostumei, no final? Me acostumei com a partida, com uma rotina sem ti, com a falta de alguém que me fizesse ir ao topo e ao chão em minutos. Me acostumei com um celular sem teu número na agenda, me acostumei com não ter esperanças em te esperar.
         Mas sabe com o quê eu ainda não me acostumei? Com esse buraco imenso que se contrái todas as vezes que eu lembro que eu não devia ter me acostumado com nada disso, se tudo tivesse dado certo, e quando eu lembro de todas essas coisas que nem constavam nos planos e hoje são bobagens corriqueiras.
            Não me acostumei ainda com a ideia de tu não ser mais parte da minha vida, só de mim. Uma parte esquecida de mim, abandonada. Que eu sinto falta todos os dias, até das piores partes dela, mas sabe o que é? Não ia valer a pena. Simplesmente não ia.

Nayane.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Como flocos de neve.

          Eu posso lidar com isso. Tenha calma, respire, você pode lidar com isso. É só medo e arrependimento. E um pouco de decepção. Concentre-se, você já passou por isso antes, certo? Certo. Eu sei que foi duro pra caramba, mas você consegue vencê-la de novo. Ela, a angústia, a raiva, a saudade e a tristeza por si só.
          Você é forte. Não, não, NÃO, por favor, não chore. Isso só vai piorar as coisas. Não, você também não pode comer. Você é mais forte do que isso, eu sei. Não deixe que as lágrimas expressem o excesso de sentimentos ruins que teu coração guarda. Não deixe-as te revelar, não deixe-as te consumir... Oh shit, man.
         Eu sou tão cretina. E tão estúpida. Oh Lord, eu sou tão fraca. Tão, tão, tão fraca. Tão ingênua e babaca, tão idiota a ponto de acreditar, e acreditar de novo, idiota a ponto de magoar quem não merece e ser cretina o suficiente para não sentir a mínima culpa e agir como se estivesse certa. 
         Eu não deveria poder chorar. Eu deveria poder apenas me desligar, me sentir livre por algum pouco tempo, mas tempo o bastante para que eu esquecesse e me desapegasse de todos esses terríveis sentimentos.
          Mas eu sou fraca demais para qualquer coisa, e eu devia só ficar aqui em volta da minha derrota e das poucas obras que eu construí e destruí, vendo-as se dissolverem no ar, assistindo minha própria fragmentação, irrelevante, fraca, como era de se esperar.

Nayane.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Autocontrole, liberdade e todas essas coisas que eu não tenho.

        Queria ter novamente o poder de controle sobre mim mesma. Decidir o que sentir, o que fazer, quem amar. Sentir aquela sensação gostosa de liberdade outra vez. Como um frenesi interrompendo todo e qualquer mau presságio que eventualmente tenho.
     Hoje tudo isso se tornou só mais uma indiferença. Como se realmente houvesse várias coisas mais importantes. 
         Como se o que eu considero importante não importasse mais.
         Então eu tenho essa sensação de irrelevância e impotência. Ela torna tudo ainda mais complicado. Preciso ouvir e aceitar as pessoas me dizendo o que é certo quando tudo o que quero é a familiar sensação do vento acariciando-me os cabelos, da areia tocando-me os pés, do barulho relaxante das ondas que quebram no mar e principalmente, da sensação de coração sereno, tranquilo, livre. Da sensação de que eu posso domar meu futuro, que eu posso planejar e que eu posso me dar bem com meus planos, independente do que as pessoas vão achar deles. Quero sentir que eu realmente posso ir longe, independente de quantas pessoas estarão de prontidão para tentarem me derrubar. Porque, a sensação de poder sobre mim mesma, é tudo o que eu peço agora. 


Nayane.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Loop de viver.

          Minhas lembranças me atormentam. Me fazem ter raiva do mundo, raiva de mim, raiva da vida. Me fazem achar cem por cento de tudo injusto. Me fazem sentir saudades do que eu não devia sentir saudades. Me fazem odiar o quanto já fui burra, hipócrita, insolente, e cretina. Me fazem odiar várias fases do que eu já fui.
           Minhas lembranças me alegram. Me fazem lembrar de que já fui feliz, de que as simples coisas sempre foram prioridade em minha vida, de que eu já fui absurdamente amada por pessoas que mereceram a reciprocidade do sentimento. Me fazem sorrir, gargalhar, querer voltar no tempo, não para mudá-las, mas para revivê-las.
          Me fazem perceber que a sanidade e a insanidade andam juntas. Que o certo anda com o errado. Que os erros andam com os acertos. Me fazem perceber que, nem tudo que fiz e que passei me agrada, mas que a vida é um constante e (in)finito loop de aprendizado, conhecimento, felicidade e confusão, e que, cá entre nós, se ela não fosse minimamente constrangedora, não seria ela.


Nayane. 

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Porcaria de desespero.

Observou-o atentamente, antes que não pudesse mais fazê-lo.
Seus olhos continuavam a brilhar daquele jeito que mostrava simpatia e ao mesmo tempo, uma autoconfiança excessiva, numa negridão que ela tanto adorava. Todos os traços do seu rosto continuavam perfeitamente esculpidos - exatamente como ela lembrava. Ou talvez... Não, aquilo seria impossível, pensara. Mas seu pensamento se contradisse assim que ele sorriu e olhou-a com afeto. Será que era possível que ele estivesse mais belo?
Como sentira falta daquele cabelo, daquela cicatriz que ninguém nunca reparava, daquelas curvas labiais que de tão perfeitas pareciam provocá-la! Vê-lo era como reacender uma chama dentro de seu peito, uma chama que a muito tinha se apagado. Era trazer de volta uma tonelada de lembranças. E, naquele momento, surpreendentemente só conseguia pensar nas boas lembranças.
De como tinha sido o último dia. De como eles se encontraram de um jeito tão meigo e tranquilo, de como ela dissera que precisava ir embora, com o pensamento de que em breve criaria coragem para finalmente fazer o que queria. Lembrou de que, mesmo meses depois, evitara até usar aquela roupa, com medo de que lhe trouxesse azar. Mas agora, aquilo não fazia sentido nenhum. Ela era muito feliz com ele. Certo?
Os olhos profundos a encarando, os dedos delicados tocando-lhe a face, tudo aquilo tornava-a confusa demais para que pudesse lembrar-se: Por que, exatamente, precisava sentir ódio dele? Mas ela sabia que sentia. E, talvez, soubesse exatamente o porquê. Talvez, o ódio só estivesse se escondido para bem fundo do seu peito, adiando o momento em que precisasse estragar sua felicidade.
Ela sabia que não poderia ser felicidade. Já sentira aquilo antes. Era uma euforia magnífica, indescritível. Mas a dor também estava ali. Ela nunca a largara. Ela estava ali para lembrá-la do impossível, para fazê-la lembrar do que precisava – mas não queria – lembrar. Ela estava ali para estragar tudo, e melhorar tudo. Não era da dor que ela sentia medo. Com a dor, ela havia aprendido a lidar. Era do que vinha depois.
Ela sabia que quando ele abrisse a boca, sairiam palavras vazias. E sabia que acreditaria, talvez porque acreditar não fosse doloroso como seria se as questionasse. Sabia que ele a chamaria de apelidos criados e adotados por si mesmo, sabia que se acharia a garota mais sortuda do mundo, até descobrir que não era a única a quem isso acontecia.
Mas ela gostava dos apelidos que ele inventava. Na verdade, ela era composta por um eterno conflito interno entre o que não deveria gostar nele e as poucas coisas que tinha razão em desaprovar. Não era como se ele não tivesse qualidades... Oh, esqueça, ele era mesmo um hipócrita nojento.
Só que era difícil acreditar nisso quando lembrava de tudo o que haviam passado juntos, do quanto confiara nele, do quanto o amara, do quanto o quisera bem. De como sofrera quando ele se fora. Era difícil querer o mesmo a qualquer pessoa, ainda que essa pessoa fosse ele. 

Nayane.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Passado. Saudade. Inferno.

          Sente-se, por favor. Isso. Quer uma xicára de caf... Oh, sim. Você não toma, desculpe. Nesse caso, pegue um copo de refrigerante, se quiser. A cozinha fica... Bem, você sabe. Agora, seria pedir muito que você me desse um pouquinho de atenção, sir?
          Oh, eu esperava que não. Quero dizer... Depois de todo esse tempo? Veja, era de se esperar que eu sentisse sua falta. Afinal, foi uma redução considerável de afinidade, essa nossa. E para não falar do tempo que a gente passa até nos rever.
            Tenho que admitir: Dói. Muito, na verdade. Mas, o que eu queria? Fingir que anda aconteceu? A propósito, pare com isso. Sério. Eu não aguento mais ter que selecionar as partes mais chatas da minha vida pra te contar só porque elas são as únicas que não vão machucar nenhum de nós dois quando proferidas. Eu gostaria muito de simplesmente poder conversar sobre isso; sobre tudo, ao invés de explodir tudo para mim mesma, numa avalanche de lágrimas, quando a saudade bate tão forte que não dá pra controlar.
          Eu não sei dizer do que mais sinto falta. Sinto falta das nossas conversas corriqueiras; da sua preocupação; de como você sorria quando via um programa que ambos assistíamos por pura diversão; de como eu não me lembro de nenhuma vez em que o tempo demorou para passar; em todos aqueles dias. Sinto falta de tudo.
          Agora, por favor, largue esse copo e me ouça: Eu queria ter dado mais valor a todos esses detalhes, porque hoje, onde eles estiveram e você deveria estar, há um grande buraco cheio de remendos ineficazes.


Nayane.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Floresta perigosa, e ainda mais perigosos meus pensamentos

            Para onde foi minha inspiração? Onde moram os dois olhos cor de mel que eram o brilho dos meus um tanto quanto negros? Sei que eles ainda estão perto, mais perto do que poderiam. Mais não são dotados da fascinação que antes eram. Minha mão não sua mais oa vê-los, e isso me entristece tanto. Que estranho, não sinto meus dedos nervosos para escrever-te algo. E nem tenho uma vontade súbita de abraçar-te. Olha, veja só, eu não quero alisar teus cabelos quase loiros. E eu não sorrio mais quando te vejo. E as palavras não me faltam na hora de falar-te alguma coisa. Em compensação, eu sinto um vazio no lugar em que meu amor morava, era uma casa simples, fraca, e eu sabia que ela cairia, só não sabia que levaria-me palavras, inspiração e um pedaço de mim. Traduzo o vazio em algo que lembra-me amargura. Preciso encher de alegrias o lugar onde mora um eu amargurado. Ó, olhem, lá vai o meu amor numa correnteza de ilusões num riacho que corta uma floresta perigosa de alguns tristes sentimentos. Preciso lhe dizer, o amor pode trazer felicidade, ou doer bastante, uma ferida aberta, mas, de tão lindo que é, até a maior ferida inspira, salva, preenche, e é melhor que viver sem nada.


                                                                                                          Júlia (:

sábado, 6 de agosto de 2011

Corredeira.

          Eu confiaria em ti a minha vida. Eu achava que te amava acima de tanta coisa, quando não passava da velha paixão. Eu achava que te teria para o resto da vida, que poderia te abraçar sempre com a mesma boa aura a nos cercar, a aura da amizade em sua forma mais pura.

          Pausa. Silêncio.

          Eu tinha me entregado a ti, te exposto meus pontos mais fracos e meus segredos mais profundos. Gargalhadas eternas, abraços assíduos. Mas tudo aquilo tinha parado, como se o tempo pudesse tê-los congelado só para brincar comigo. O que estava havendo? Guerra? Confusão? Mágoa?

          Pausa. Percepção.

          De repente, tudo parecia se encaixar. Teu sorriso não era como os outros, tuas histórias eram mais interessantes do que todas as outras juntas. Eu sabia, no fundo eu sabia, que embora fosse repugnante devido as circunstâncias, meu amor era verdadeiramente amor.

          Pausa. Revelação.

       Tu tinhas meus sentimentos mais profundos nas mãos, e os arremessastes como uma bolinha de papel. O apego pra ti era desnecessário; eu já não era mais necessária, afinal. E assim tu me machucaste, e a machucastes, e eu a machuquei. Como um ciclo vicioso enraizado na dependência. Como uma deplorável droga.

          Pausa. Mais bolinhas.

          Cada gota das minhas lágrimas, cada uma delas era apenas mais uma coisa para você arremessar. E cada uma das lágrimas dela, não importava para você. E o beijo dela, e o choro dela, e minhas lamúrias, e meus sentimentos, eles também não importavam para você.

          Ma-tu-ri-da-de.

          Não pense que eu esqueci de tudo. Eu lembro-me bem daquele outro eu, e daqueles dias, e daquelas lágrimas. Mas eu lembro-me num misto de decepção, ódio, saudade e nojo. São coisas que quero apagar, as quais quero apartar, tirar de mim, arrancar dela. Coisas que só o tempo me fez capaz de entender, sentimentos que estavam fincados tão dentro de mim que foi preciso muito tempo para que todo o pó fosse retirado, e a mágoa fosse diminuída, e as feridas cicatrizassem, para que eu pudesse entender. Erros. Erros que eu não faria. Não novamente.

Nayane. 

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Belas velhices.

          Havia um quê de monotonia naquela sala, tão pequeno e quase insignificante, mas era o bastante para dominar o ambiente. Escutava o tic-tac do relógio, o tempo todo, sem parar. Me acostumei a suas pequenas pausas. Acidentalmente, percebi que as acompanhava com o pensamento. Não sei quanto tempo fiquei ali, tão imersa em pensamentos que não conseguia pensar em nada além das pausas do relógio. Mais uma vez, tentei ocupar minha mente com outras coisas. Levantei-me, e andei devagar em direção a cozinha. Quem sabe assim o tempo não passasse mais rápido? Mas não passara. Quando cheguei a cozinha, não sabia o que fazer, assim voltei para a sala, só para me frustrar descobrindo que não tinha passado meio minuto. Puxei um dos livros da estante, sem nem prestar tanta atenção ao título. Só queria uma distração. Também não sei quanto tempo tive de ficar ali, lendo a mesma linha, sem perceber, tentando absorver qualquer tipo de conteúdo que estivesse ao meu alcance, sem conseguir um mero entendimento. Joguei o livro de lado. Aquele tédio já estava me corroendo por dentro. Fui até a cozinha e tomei um longo gole de café. Eu nunca gostara muito de café. Na verdade, sempre odiara. Mas, aquela altura, qualquer coisa que pudesse significar algo de diferente no meu dia, seria de bom tamanho. Ainda mais se esta pudesse me dar mais energia.
          Então, abri a porta e saí de casa. Senti a leve brisa roçar meu rosto e desembaraçar delicadamente meus cabelos trançados. A sensação tirou um pouco do peso da insignificância sobre mim. Comecei a caminhar, embora não tivesse nenhum destino. Gostei disso. Sabe, de andar sem rumo, sem fazer planos, só para observar as alegres vidas das crianças que se reuniam ali ocasionalmente para brincar. De repente, senti um aperto no peito. Um aperto que afundava mais e mais a cada segundo em que eu as olhava. E quando eu vi uma das garotinhas, que deveria ter uns cinco ou seis anos de idade, sorrir alegremente, foi como se o mundo não existisse mais, e só existisse o sorriso puro daquela menininha, despreocupada, sem a menor ideia do que a vida e o mundo aguardavam para ela. O aperto em meu coração intensificou-se, e, com um leve sobressalto, entendi o que ele significava. Sentia saudades. Saudades imensas daquele tempo, em que a minha única preocupação era correr mais rápido do que os outros para não precisar ser o "pega", e a minha única meta era me divertir e fazer o máximo de brincadeiras que minha capacidade permitisse. E senti mais saudades ainda quando vi a pequena sorrir. Há quanto tempo não sorria daquela maneira? Muito, muito tempo. Provavelmente, a mesma quantidade de tempo em que não precisava me responsabilizar por nada que não fosse trapaça no esconde-esconde. Não conto exatamente como era aquele sorriso, porque qualquer coisa que eu diga, não vai ser mais do que um terrível eufemismo.
          As crianças agora se reuniam para brincar de cabra-cega, e, sabendo que pareceria estranho se continuasse a observá-las daquela forma, continuei caminhando, embora relutante. Entretanto, meu tédio passara. Foi um pouco engraçado como, de uma hora para outra, meu dia ganhou um brilho intenso, e eu senti-me muito mais revigorada. Ainda andava sem rumo, ainda gostava daquilo. Encostei-me numa barraquinha velha e suja, de aspecto precário, com o objetivo de sentar-me nas cadeiras diante dela e tomar alguma coisa. Quem sabe, até fumasse algum cigarro. A ideia me parecia deliciosa; há quanto tempo não colocava um deles na boca, só porque me achava jovem demais? De fato, era. Mas hoje, não queria obedecer a regras. Hoje, queria viver intensamente, como a menininha que deixara para trás. Não me leve a mal: Eu não era sempre assim. E nem queria me viciar em cigarros só para ter alguma motivação naquela vida de trestálio, apenas achei que, ser inconsequente uma vez na vida, não poderia me fazer mal nenhum. Ninguém viera me atender, mas não me importei. Sentei-me em uma das precárias cadeiras de plástico, e fiquei defronte da rua, observando as pessoas sairem e entrarem em suas casas, observando suas expressões, suas conversas, suas roupas. Mas foi um casal que me chamou a atenção.
          Um deles era uma senhora gorducha, que usava vestes gastas e um cocó no alto da cabeça. Me lembrava estranhamente uma típica vovó de filme americano. O outro era um senhor, de vestes igualmente velhas, careca reluzente e aparência um pouco doentia. Mas não era nada disso que me chamava a atenção: era o modo como eles dois se olhavam, riam um para o outro, cheios de amor e atenção. Isto também me parece um eufemismo, por agora. Eles tinham algo mais. Era quase inacreditável o modo como agiam, como se um realmente completasse as frases do outro, o sorriso, os gestos. Era um carinho o qual nunca presenciara em casa, pois meus pais se divorciaram há muito, e não me lembro de muita coisa antes disso. Foi simplesmente fantástico presenciar aquela cena. Levantei-me da cadeira, maravilhada, e tentei me aproximar um pouco mais. Foi aí que o senhor começou a tossir. Tossir muito. Em meio a sua tosse, pude acompanhar o desespero da vovó, que parecia incapaz de tomar qualquer providência para ajudá-lo, com o impacto do choque. O velho tossia sangue. Sua pele começava a empalidecer, e embora ele tentasse ao menos apoiar-se, não parecia ter força o suficiente.
          Não sei bem o motivo que me levou a correr desesperadamente para ele e tentar colocá-lo de pé e firme, mas foi a única coisa que consegui fazer na hora. A cena daquela pobre velhinha chocada ao vê-lo enfraquecer foi o que bastou para fazer com que eu corresse até eles, e batesse de porta em porta chamando algum vizinho que pudesse nos levar ao hospital, até encontrar uma alma caridosa que se dispôs a nos ajudar.
          Ainda lembro de cada terrível detalhe. Da minha apreensão, do carona, e da senhora, que mais tarde descobriria se chamar Ana. O nervosismo pairava sobre a sala, e aquele sorriso que vira mais cedo na garotinha parecia uma lembrança velha e distante. De vez em quando, a velha sorria para mim, fosse para agradecer ou me confortar eu já não sei dizer. Não conversamos muito. Então, um homem de cabelos grisalhos e jaleco branco entrou na salinha para nos informar que era tarde demais. 
          A cena foi de partir o coração. A dor expressada no rosto dela, a indignação mascarada em soluços. Eu já adorava aquela senhora, já adorava a capacidade com a qual ela podia amar e expressar-se. Ela me abraçou por alguns instantes, murmurando agradecimentos soltos. Então ela pediu para vê-lo. Entrou na sala ainda embargada, e, espiando somente pela janelinha, vi o mesmo amor de mais cedo em seus olhos. Puro amor. Porque ela ainda se lembraria dele, ainda o desejaria, e, quando a saudade ameaçasse corroê-la, ela ainda teria as boas recordações de amor para alimentá-la. 


Nayane.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Born for this.

          Acendeu o milagroso cigarro como se disso dependesse sua vida, tamanha era a ânsia de sentir aquela maravilhosamente atordoante sensação dominar-lhe o cérebro outra vez, na esperança de que aquilo a dispersasse um pouco da dor que cavava seu peito.
         Já era tarde da noite, e o pequeno e abafado aposento era fracamente iluminado pela luz do abajur, e, obviamente, da pontinha de seu cigarro. Estava escorada no parapeito da janela, olhando a rua deserta e também mal-iluminada que parecia bruxulear em meio a escuridão. Mas aquilo não a assustava. Gostava do silêncio e do sossego, da noite e a maneira como todas as coisas importantes ocultavam-se nela. De qualquer forma, tinha coisas mais preocupantes em mente.
          Não conseguira dormir aquela noite. Tentara de tudo, sem sucesso; Sua mente a incomodava. A perturbava por um tempo que parecia durar anos, num cansativo conflito interno, até que vencesse e se apoderasse de todo o resto, embriagando-na com lembranças e relembrando-a cada detalhe importante, cada dolorida sensação. Mas ela não choraria. Aquilo seria demais para sua mente, outrora tão astuta. Depois de algumas resistências, pegara a única unidade de cigarro escondida em sua meia mais antiga e envolvera nela um surpreendente significado.
          A frágil chama depositada do esqueiro para ele, era o puro reflexo da pequena esperança que ardia dentro de si. A continuidade de sensações doentias e incríveis do conteúdo quando consumido era como uma continuidade de seus atos inconsequentes e contraditórios, causados pela esperança, na busca pela libertação de sua alma. E, por fim, a fumaça que emanava de seus delicados lábios a cada baforada representava o resultado de uma árdua batalha. No final, só o que restaria seria um breve borrão transformado em absolutamente nada. 
          E o cigarro diminuía a cada reflexão, quase como se concordasse que em toda sua existência, apesar de toda a esperança cativada, apesar de toda a dor em busca da paz, acabaria servindo apenas para amenizar uma dor que voltaria a existir assim que se transformasse em pó. 

Nayane.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Ela.

       Nós discutíamos algumas vezes. Os ciúmes e as saudades chegavam a um ponto tão alto que o único jeito de irmos em frente era os disfarçando com agressividade. Atirávamo-nos palavras medíocres por algum tempo, e então, quando uma se feria, a outra só podia chorar com ela e confortá-la.
      Não pessoalmente, é claro. Era a única coisa que odiava em nossa relação: Eu nunca podia secar-lhe as lágrimas, apenas ouvir seu soluço, e indescritivelmente senti-las rolar sobre sua face manchada. Ou talvez fosse só minha imaginação.
       Todo aquele tempo eu achei que devesse compensar toda minha ausência protegendo-a. Esforçava-me para parecer-lhe o mais madura possível, tentava dar-lhe os conselhos mais inteligentes, fazia-a entender seus erros para que não pudesse repeti-los. Ela era a única pessoa com quem eu gostava de me preocupar mais do que a mim mesma.
        Ela estava sempre me surpreendendo. Ora ignorando tudo o que tentava lhe dizer, ora implorando-me ajuda. Eu adorava ajudá-la. Apenas porque os conselhos, os consolos, eram a única maneira que poderia fazer-me sentir realmente ao seu lado, não porque ela fosse fraca. Oh, não, ela não era fraca. Dentro de toda aquela capa de dúvidas e incertezas, havia um livro folheado de escolhas, sonhos, inteligência, talento e capacidade. Mas ela preferia julgar-se pela capa; ela, mais do que ninguém, sabia de toda a realidade, mas não queria encará-la.
     Deus, ela me preocupava. Queria abraçá-la por horas, enquanto chorássemos apenas porque podíamos agarrar-nos a emoção da outra, em meio a alegria e consolo. Eu a ensinei muito. Sei disso. E também aprendi muito com ela. Eu a amava, e sabia reconhecer cada qualidade responsável por isso. E, na calada da noite, enquanto todo o meu corpo doía, pela necessidade do brilho daquele sorriso outra vez, pela necessidade de protegê-la até o fim dos mundos, perguntava-me se era realmente ela quem precisava de meus abraços e proteção.

Nayane.

sábado, 25 de junho de 2011

Lenta e imutavelmente.

          Cada vez mais confino-me e guardo-me para mim mesma, com belas lembranças por consumir-me. De vez em quando lembro-me de você com clareza. Mentira minha, lembro de ti o tempo todo. Lembro de você enquanto caminho na praia, sendo banhada por aquela imensidão azul. Lembro de você quando a música que tomei por nossa toca na rádio, e traz-me a tona todas as lembranças que vinha tentando reprimir por um bom tempo. Lembro de você quando vejo algo que você gostaria. Quando fito o céu escuro, sem motivo nenhum, e todas aquelas estrelas brilham como meu olhar ao cruzar o teu. Lembro de você quando estou tomando meu café a beira da madrugada e recebo um torpedo inusitado. Lembro bastante de você.
          Mas não é isso que me surpreende. Veja bem, outro dia estava caminhando por qualquer lugar, e vi um casal trocando pequenos sorrisos, pequenas carícias, os rostos a se buscarem a todo momento. Era bonito, sabe. Não era como aqueles casais de TV que só se interessam pelo que o outro tem a oferecer. Era mais real. Era verdadeiro. Era como nós. Eles não pareciam esperar qualquer coisa um do outro, porque eles não precisavam de outra coisa. Eles pareciam-me o tipo de casal que dariam tudo pelo outro, mas preferiam, modestamente, deixar esse fato oculto e viver o belo presente. Por que nós não vivemos o presente? Por que nós deixamos acabar? O que foi que nós fizemos com todo aquele amor? Só eu sei o quanto não poder mais acolher-me no teu abraço dói.



Nayane.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Asquerosamente racional.

          Será que esta face distorcida em desespero que vejo no espelho, ainda me pertence? Será que eu tenho razão em ter certeza de que não sou mais a mesma pessoa? Sou a garota que deixou seus sonhos e ambições de lado para viver um presente patético ou a garota que se deu conta disso e vive em meio ao arrependimento? Sei que só há uma resposta. Sei que quando fitar o reflexo de meu rosto, entenderei que o desespero estampado nele retrata uma escolha mal feita, mas uma escolha que provavelmente, não seria mudada após uma segunda chance. Ainda sou a mesma imbecil que lutou por algo que não existia, não a menina amadurecida que se arrepende por tê-lo feito.


          Infelizmente, é o que a parte racional de meu cérebro me avisa. E também é o que sinto. Será que se eu tivesse a mesma consciência de hoje, teria feito as mesmas coisas, cometido os mesmos erros, lutado tanto por uma falsa visão de felicidade? Tudo seria muito mais fácil se a visão insolente e hipócrita que eu tinha de você não tivesse se moldado. Mas hoje, eu sou o que sou, com todos os erros cometidos, obrigada a engolir meu orgulho e admitir que me arrependo.

Nayane.

domingo, 19 de junho de 2011

Máscaras

''Ei, vocês! Não se cansaram de me alfinetar? Não se cansaram de cuspir suas verdades banhadas na água dos meus defeitos pelas minhas costas? Como podem ser tão cruéis? Só quero que vocês fodam-se!'' 
          Só quero sentir o ardor da minha verdade, e sentir as palavras saírem da minha boca para incriminar-lhes, sentir o peso ser retirado das minhas costas, sentar-me, e, ver alguém verdadeiro me ajudar a tratar dos meus pés cálidos. Quero com toda a minha força sentir que vocês sentiram-se como senti-me. Gostariam de provar da dor? Gostariam de ser rejeitadas, renegadas, humilhadas, esculachadas, fodidas, ferradas pelas pessoas que vocês mais confiavam? Suas máscaras eram tão perfeitas. Os seus sorrisos, quando me aconselhavam, iam de um canto a outro de suas bocas, quase partindo-a, e, parecia tão real... 
"Ei, vocês! Onde estão suas máscaras? Ficam assustadoras sem elas, me parecem cruéis... Ontem não tinham dito que me amavam? Achei que pareciam preocupadas quando me viram chorar. '' 
             Eu não pedi nada além de amigas de verdade. Acreditem, eu sou alguém defeituosa. Mas, eu nunca imaginei que chegaríamos a este ponto. Achei que nós poderíamos não guardar rancor de nossas brigas, achei que pudéssemos ser sinceras, e, antes tudo isto me parecia tão fácil. Mas, isso foi até me apunhalarem por trás, até alguém vir me contar que eu estava ferida, sabe, eu não pude perceber, é que vocês pareciam tão certas de si mesmas quando me diziam que não havia ferimento algum, quando dei por mim, eu já havia sangrado demais para suportar mais um pouco, ainda tentei me apoiar nos seus ombros firmes, mas, ao o fazer, levei uma queda e notei que eles já não estavam mais lá. Me deixaram só.  Não pude acreditar e procurei mais um pouco, putas, me deixaram só. 
''Ei, vocês! Detentoras de todos os meus segredos, os esqueçam assim como esqueceram de mim, e, façam-me o favor de ser como se vocês nunca tivessem me conhecido. E, não. Eu não preciso que me ajudem a colar os cacos, o maior trabalho eu já fiz. Eu os colhi, eu me cortei, eu chorei, eu sofri, sozinha, eu cai, porque procurei seus ombros, porque eu me enganei com a idéia remota que vocês podiam estar lá! Que caiam as máscaras, seus monstros ! ''
              
Júlia (:
                     

terça-feira, 14 de junho de 2011

Ultimato.

         Vamos alimentar! Alimentar a esperança que não existe, que dissipou-se nas primeiras luzes do túnel. Vamos deixar-nos consumir pela ignorância, a ignorância que soa íntima a esta espécie.
         E por que não? E por que não iludir-se? E por que não seguir em frente e deixar-nos conduzir pela vida? E por que não ser mais um pino colorido em um jogo que não é nosso, que, numa possibilidade remota de simpatizarmos bem com o jogador, poderemos vencer?
       Vamos lá! O que estão esperando? É pura diversão. Venda sua alma, compre um ingresso e leve lâminas de brinde. Aproveite. Não recebi nem a promoção.





 Nayane.

Irreversível.

          Preciso de ar.
          Preciso fugir.
          Preciso, e devo, parar com tudo, pôr um fim em tudo.
          Mas, só esse pensamento me desespera de tal forma que cada centímetro de meu corpo enfraquece, e fecha-se para a verdade que não quero encarar: Não importa. Não há volta, e se tudo não for como tudo em mim anseia... Bem, então não faria sentido... continuar.
          Um novo momento transpassado na mente, uma nova sensação. Talvez seja alegria. Talvez saudade. Ou talvez... Lentamente, limpo meu rosto manchado de lágrimas, quase sem notar que elas estão ali.
          Doce sina.
          Eu sei que nunca vou conseguir. A importância dela em minha vida chega a ser brutal.
          Eu sei que nenhuma palavra de conforto vai ser acolhedora o suficiente para este momento.
          Nada vai mudar.
          Venha o que vier, será uma lembrança que quererei afastar, e ao mesmo tempo, será o pior castigo do mundo. De todo o mundo.
          Inferno.
         É nele que minha mente está.

Nayane.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Medo do amor

          ''Tal como uma planta eu preciso do sol, eu preciso do seu brilho, da sua força e da exuberância evidente nos seus raios ao inciderem em qualquer lugar que seja, porque é justamente isso que é o amor, trás a beleza aos lugares mais inóspitos e frios do seu coração, mas, assim como o sol, ele pode queimar, doer, corroer, machucar, ferir, mas, ferir tão forte que a dor chega a ser insuportável, repugnante, traumática. E é dessas dores que partem meu medo, me sinto frágil, só de pensar nos fortes raios eu sinto o latejar das feridas, o ardor das queimaduras, diferentemente de antes, eu não consigo me ver iluminada por estes raios.  


           Talvez, logo eu, que nunca gostei da monotonia, a prefira do que amar. Talvez eu acabe me forçando a optar pelas tardes monótonas onde eu não tinha ninguém em quem pensar, talvez eu escolha o vento gélido soprando a minha face ritmadamente, do que o sol iluminando e me queimando ao mesmo tempo, por mais que eu goste da luz, as queimaduras não são agradáveis. E então, eu já sei o que escolher. O problema, lembro-me, é que eu não posso escolher entre manhãs quentes ou tardes monótonas, mesmo o coração sendo meu, eu não posso escolher, o que é tão injusto que chega a me doer um pouco mais, vou ter que ser queimada, machucada e ferida, e, eu nada posso fazer. '' 

Júlia

domingo, 5 de junho de 2011

I just want

            Eu só queria uma única vez saber os sentimentos que estão guardados no abismo dentro de mim mesma, só uma única vez saber explicar meu estado de humor, entender quem eu sou, saber o que é ter, e, conhecer a dor de perder, eu sempre acho que perco tudo... Mas, a maior verdade é que nunca se perde algo que nunca se teve. 



            Eu só queria alguma vez fundir a minha solidão com outra, pra ver se partilhando eu esquecia a dor, eu não queria sorrir sempre, porque se eu nunca sofresse não valorizaria os meu sorrisos, a verdade é que eu só queria que as minhas alegrias fossem na maioria das vezes maiores que as minhas tristezas. Que as minhas lágrimas fossem mais leves e não escorressem como agulhas arranhando a minha face gélida, que não me deixassem tão frustrada como deixam, tal qual chorar sangue, eu quero lágrimas com sabor de mel ! Sorrisos com gosto de jujuba de morango, e, alegrias tão intensas que me façam não caber em mim de vez em quando.
            Eu quero ver minha estrela brilhar uma vez, e sentir a força de ser eu mesma, sentir como é bom ser eu, sabe ? Ter orgulho de mim. Só queria uma única vez ser reconhecida como alguma coisa, nem que fosse eu mesma que o fizesse. Ser segura de mim, e, não me corroer por dentro e continuar segurando as lágrimas quando me sentir ameaçada. Só queria ter a certeza que as pessoas não me conhecem só por Júlia. Porque, acreditem, Júlia, existem várias. Eu queria que elas me reconhecessem pelo que eu sou. Pelo que eu penso e pelo que faço. 


Júlia (:

sábado, 4 de junho de 2011

Insignificante.

          Lembro-me bem da sensação. Não pense que já esqueci. Isso, nunca. A solidão, amargura de quem ama; e a saudade: que é pura solidão, o tempo não foi capaz de curar em mim. De forma inevitável ou não, aprendi muito com ele. Aprendi a errar e a aprender com meus próprios erros, e aprendi a perdoar porque assim como eu, as pessoas também são capazes de aprender, mesmo que não das melhores formas. Aprendi a amar intensa e verdadeiramente. Aprendi a me arrepender logo após. Aprendi a engolir meu orgulho nos momentos de dor. Aprendi a amar-me, amar, magoar-me, magoar, arrepender-me, lutar e desistir. Sim, aprendi a desistir. Aprendi a desistir porque era mais fácil do que aprender a lidar com a dor.
          Hoje vejo que isso não tem mais tanta importância. A dor me machucou. Fez com que eu machucasse. A dor fez com que cada parte de meu corpo implorasse por perdão, aprovação, vida. Uma vida diferente daquela que eu tentava fugir. A vida que eu tinha antes de tudo virar ao avesso, uma vida tão distante que eu mal me lembrava.
         Mas agora? São apenas detalhes chatos de uma vida entediante. São só lembranças estúpidas, as quais hoje sinto vergonha de ter vivido. Só recordações sem sentido se comparadas ao meu presente. Porque, hoje, eu entendi o verdadeiro sentido de muito daquilo que sempre procurei; o verdadeiro amor por trás dos defeitos, a verdadeira felicidade através das dificuldades. Os empecilhos? Bobagem. Pra que dor, pra que mágoa, pra que sofrimento se fixar meus olhos naquela imensidão de maravilhas negras faz-me esquecer de tudo o que não é belo? Eles não importam. Ela não importa. Nada importa. Só o que importa é o que me faz feliz, e isso, eu já consegui conquistar em parte, e quero continuar tentando, tentando e tentando.

Nayane.

sábado, 28 de maio de 2011

Ignore.

          Foi quando eu me peguei sozinha cantarolando alguma lamúria qualquer que passei a repensar meu lado simpático. Sabe, essa minha mania de sempre achar que há esperanças; de ver sempre o lado bom das coisas mesmo quando ele não existe. Nessas horas que eu paro de repente só para lamentar o rumo que tudo está tomando. Apesar de no fundo ter a certeza de que não há mais volta, tento me enganar; me fazer entender, até o último segundo, que nada está arruinado, nada acabou e tudo só passou de uma fase.



          Idiotice. Sério, as vezes a parte racional de mim despreza a outra por esse pensamento inocente. Penso comigo mesma: De quê adianta fingir não entender, se eu sei que no final vou acabar me machucando? É isso que acaba com tudo. Quando o coração fala mais alto, quero dizer. Talvez eu devesse julgar mais, contrariar o bom senso e me tornar totalmente seletiva. Talvez eu só devesse tentar não ligar tanto para tudo, esquecer as tais coisas sem importância e seguir em frente. Da minha maneira, mas seguindo em frente.
          Ou talvez eu só devesse... Sei lá, aprender a ignorar melhor.

Nayane.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A solução é educar, e, não simplificar.

       Preconceito linguístico, é este o mais novo assunto do momento. Marcos Bagno foi quem desencadeou a onda de discussões em relação a variação não-padrão da língua portuguesa, ao lançar o livro ‘‘Preconceito linguístico’’. Nesta obra ele faz uma crítica aos gramáticos tradicionais e as pessoas que utilizam a norma culta, alegando que, ao julgar errado a escrita de por exemplo a palavra: Saldade. Estaríamos praticando o tal preconceito linguístico.
       Não sou a favor de julgar pessoas pela forma como elas escrevem, mas, não posso deixar de enfatizar que não me trás felicidade vê-la escrever: ‘‘Saldade’’ – o que não quer dizer que eu não vá gostar dela por isso  – a questão é: Se formos deixar de lado a gramática, e, passar a aceitar as variações da língua falada na escrita seria quase o mesmo de dizermos: ‘‘Atenção, não teremos mais aulas de português nas escolas, pois, um analfabeto, ele sabe sim a língua portuguesa, e, o que é que tem se os profissionais de hoje em dia utilizam a palavra seje em vez de seja? Grande coisa! Isso é só a variação não-padrão da língua portuguesa, ela deve ser sim aceitada.’’
     Não falo de julgar caráter através da escrita. Longe de mim fazer isso. Só  não é correto tornar mais fácil a língua portuguesa por conta da deficiência na educação brasileira, se tivessemos boas escolas, será que teríamos que agora discutir o fato dos gramáticos aceitarem ou não o português não-padrão? É óbvio que não. Porque as pessoas saberiam falar português. Não é difícil de entender. Se fosse para escrever da forma que soubessemos - aceitar as variações individuais da língua portuguesa – era melhor que não existisse gramática.
     Porque regredir uma língua quando o que deveríamos fazer era proguedir com ela?  Por isso que o Brasil não vai para frente. Em vez desses malditos políticos estarem preocupados em melhorar a educação PARA TODOS eles vão acabar por facilitar a língua para resolver o problema. Tudo isso porque eles enchem seus bolsos de dinheiro para gastar com suas viagens ao exterior, em vez de estarem preocupados com os semi-analfabetos que cursam o terceiro ano do ensino médio numa escola pública.
      Preconceito linguístico envolve a questão de educar essas pessoas e não de aceitar numa redação o fato de alguém escrever saldade e não saudade, ou até mesmo deixar passar em branco alguém que fala seje e não seja, não acredito que a solução esteja aí, só porque é mais fácil simplificar o português, e, não educar essas pessoas, vamos escolher este caminho? Por mim não. Vamos educar, e, não aceitar de braços cruzados o fato das pessoas não saberem falar português. Vamos resgatar o verdadeiro português. E não simplismente simplificar a língua como desculpa para combater o preconceito. Quando houver educação, eles vão ler, vão falar bem, escrever bem, e, talvez vivamos um país onde não será necessário regredir com a sua língua para que eles não sejam julgados por não falar a norma-padrão, no ritmo que vamos, acabaremos num país onde a desigualdade social nunca mudará, quem tem educação formal, manda nos pobres operários sem educação. Isso aí queridos linguistas e governantes, construam o nosso país de maioria operária.

Júlia (:

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Me acordem quando tudo estiver bem.

            Era a última aula do dia, a pior de todas, por sinal, mas, ela estava disposta a encarar mais essa apesar da sua completa falta de humor. Antes disso, pediria ao professor para conversar com a turma, sabe, desde de que tinha sido elegida a representante ela tentava ao máximo ser exemplar, falar com a turma, e, pela turma. A missão era difícil, ela sabia, mas, era também prazerosa, já que, ela sempre quis fazer de sua vida algo importante, genial, admirável, memorável, e, isso parecia ser um passo, um pequeninissímo passo, enfim, ela tentava ser tudo, e, quase sempre quebrava a cara. Talvez porque era difícil para ela entender que não conquistaria tudo, por mais que quisesse conquistar, ainda assim, afastava tal idéia, e, apenas agia conforme notava a necessidade. Tentava ser sempre sorrindente, respeitosa, e, sutil, muito sutil. 
          Porém, nada estava igual naquele dia. Aliás, nada nunca mais fora igual a vida que levava antes, e, ela sentia pressão das diferenças. Sentia repugnância daquele lugar, sentia raiva das futilidades proferidas por aquelas pessoas, sentia raiva de si mesma, sentia raiva da vida, sentia-se triste, sentia raiva do professor, odiava a tudo e a todos. Naquele dia, ela tinha se exaltado, depois de passar o maior sermão de sua vida. Isolou-se na última cadeira, pôs os fones de ouvidos, enrolou o casaco no pescoço, e, pôs o cabelo cobrindo as orelhas, ouvia a música ao mesmo tempo que na sua mente passavam-se tantas coisas, tantos momentos, que, se lhe perguntassem no que ela pensava, ela diria que nem ela própria sabia.  Perguntava-se porque tudo tinha mudado tanto, lembrava-se, de quando 2010 virou, trazendo 2011, o melhor ano de sua vida, lembrou-se... Ela iria ter boas, grandes e eternas amizades, ela teria um amor, ela se daria bem na escola, e, ia ler livros excepcionais, ela erraria, sofreria, choraria, mas, isso não seria mais que seus sorrisos, que seus acertos, que suas alegrias. Planos. Ria da sua própria idiotice. 
           Não sabia o que sentia, mas, podia notar seus olhos ardendo, e, as lágrimas silenciosas molhando a sua face fria. Enxugou-as rapidamente, antes que alguém pudesse notar, sabia que não evitaria perguntas do tipo : ''Porque tu estavas lá trás sozinha ? '' ou : ''Estás bem ?'' Mas, lágrimas, seriam demais. Lágrimas significavam tristeza. E ela não queria que soubessem que estava triste. Notou o sermão que o professor passava numa garota da turma, tirou subitamente os fones do ouvido, notando que ela seria expulsa de sala por um celular. A garota saiu irritada, levando consigo suas coisas. Não pôs mais os fones, apenas permaneceu silenciosamente pensando, em meio ao barulho externo, e, de seus próprios pesamentos. Odiava aquilo com toda a sua força. Odiava. Quando o sino tocou, foi para a parada, tentando evitar as pessoas, e, foi para casa apenas para ficar mais uma vez com seus conturbados pensamentos. Apenas para passar o resto do dia desejando dormir, um sono longo, e, cheio de sonhos, onde, só há acordariam quando tudo aquilo passasse. 

Júlia (: