Acendeu o milagroso cigarro como se disso dependesse sua vida, tamanha era a ânsia de sentir aquela maravilhosamente atordoante sensação dominar-lhe o cérebro outra vez, na esperança de que aquilo a dispersasse um pouco da dor que cavava seu peito.
Já era tarde da noite, e o pequeno e abafado aposento era fracamente iluminado pela luz do abajur, e, obviamente, da pontinha de seu cigarro. Estava escorada no parapeito da janela, olhando a rua deserta e também mal-iluminada que parecia bruxulear em meio a escuridão. Mas aquilo não a assustava. Gostava do silêncio e do sossego, da noite e a maneira como todas as coisas importantes ocultavam-se nela. De qualquer forma, tinha coisas mais preocupantes em mente.
Não conseguira dormir aquela noite. Tentara de tudo, sem sucesso; Sua mente a incomodava. A perturbava por um tempo que parecia durar anos, num cansativo conflito interno, até que vencesse e se apoderasse de todo o resto, embriagando-na com lembranças e relembrando-a cada detalhe importante, cada dolorida sensação. Mas ela não choraria. Aquilo seria demais para sua mente, outrora tão astuta. Depois de algumas resistências, pegara a única unidade de cigarro escondida em sua meia mais antiga e envolvera nela um surpreendente significado.
A frágil chama depositada do esqueiro para ele, era o puro reflexo da pequena esperança que ardia dentro de si. A continuidade de sensações doentias e incríveis do conteúdo quando consumido era como uma continuidade de seus atos inconsequentes e contraditórios, causados pela esperança, na busca pela libertação de sua alma. E, por fim, a fumaça que emanava de seus delicados lábios a cada baforada representava o resultado de uma árdua batalha. No final, só o que restaria seria um breve borrão transformado em absolutamente nada.
E o cigarro diminuía a cada reflexão, quase como se concordasse que em toda sua existência, apesar de toda a esperança cativada, apesar de toda a dor em busca da paz, acabaria servindo apenas para amenizar uma dor que voltaria a existir assim que se transformasse em pó.
Nayane.
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