segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Pantufas, noite e milk shake.

          Estava no meio da noite, mas ainda rolava de um canto a outro da cama, esperando o sono chegar. Não conseguia, apenas pensava em nós. O nós que nunca existiu e pelo visto, não vai. As lágrimas incessantes haviam marcado minha face, agora só me restava levantar e jogar água no rosto. Nunca entendi o propósito disso, mas ajudava-me a ficar calma. Fui ao banheiro, cambaleando com meu próprio peso. Eu sentia-me fria e cansada. Nada me aquecia aquele momento, exceto sua voz ainda ecoando em minha mente. Lavei lentamente minha face, acabando com todos os vestígios de choro e desânimo. Olhei o relógio em meu pulso. Era tarde, mas precisava pensar. Vestia um pijama velho, mas não me importei. Puxei qualquer casacão mais próximo de mim de dentro do meu guarda-roupa, calcei minhas pantufas confortáveis e saí, sem ao menos trancar a porta.
          Tremi de frio ao encarar a brisa lá fora. Nem mesmo meus calçados ou o grosso casaco que usava impediam-me de sentir calafrios. Olhei pra trás, pensando em voltar para casa, e dormir tranquilamente debaixo das cobertas. Sabendo que não conseguiria, voltei a caminhar. A rua estava deserta, e chegava até a me assustar. A escuridão me engolia. Eu ainda não sabia para aonde ir, então tive a ideia perfeita. Andei aproximadamente vinte minutos, cantarolando baixo qualquer coisa de Paramore. Na avenida beira mar, bares ainda estavam em funcionamento, e até algumas lanchonetes. Fui até uma e pedi para viagem um milk shake de ovomaltine, lembrando-me que havia algum dinheiro neste casaco. A atendente estranhou. Ela encarou meus trajes, minha mão tremendo e o clima lá fora. Só confirmei com a cabeça. Peguei meu milk shake e saí. Engoli cada gota com mais vigor que a outra, deixando o gelo corroer mais ainda meu interior gélido. Uma maneira nada saudável ou inteligente de fazer-me mal, confesso, mas deliciosa. Caminhei até a praia, com um delicioso líquido nas mãos e adorando a sensação de ser exceção ao silêncio refugiador quando meus passos faziam barulhos contra a areia. Só que desta vez, sozinha.
          Cheguei no lugar. Tinha estado tantas outras vezes ali, mas nenhuma era como agora. Senti-me solitária, isolada de tudo e de todos. Dei de ombros. Um monte de rochas grandes e grossas amontoavam-se na areia, próximas a saída para a avenida, parte do plano para aquele ser um lugar secreto para nós dois. Afastei a maior de todas com força. Quando o fiz, um caminho estreito e totalmente escuro abriu-se para mim. Entrei debaixo das pedras. Quente, aconchegante e calmo, aquele lugar ainda era do jeito que eu me lembrava dele. Lembrei-me da primeira vez que estivera ali.
          - Por que me trouxe até aqui? - Eu perguntara, confusa e com medo de estar a sós com você no meio da escuridão.
          - Porque você é especial. - Mesmo com a escuridão, vi seus lábios curvarem-se.
          - Pra quantas garotas disse isso?
          - Contando com você, uma. - O rubor subira-me ao rosto.
          Sorri para mim mesma, lembrando-me daquilo ao mesmo tempo que tentava afastar a lembrança. Não havia volta. Você tinha sido claro quando me disse que tinha acabado pra valer, e mesmo quando eu tentei dizer que poderíamos passar por aquilo, você afirmou que não. Você não me amava mais. Novamente lágrimas escorreram-me a face. Suspirei. Ali, deitada na areia, na escuridão e no calor, adormeci, ainda com suas palavras em minha mente.

Nayane Ramoos.

2 comentários:

  1. Adorei amiga ! História perfeita..escreve muiito bem (; bgs aqui e a Naiara de Salvo Lisboa

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  2. Ah, muito obrigada! Fico feliz que tenha gostado (: Beijos!

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