Acendo a luz do pequeno abajur ao meu lado, perdi o sono, assim como todas as outras noites, desde de que te conheci. Me levanto,e, vou em direção a janela, por entre as cortinas observo a noite cuidadosamente, o escuro, as estrelas, a lua que brilha como uma tocha no meio da escuridão, e de repente, observo toda a paisagem mudar. Estou no cinema, você também está lá, meu coração palpita a cada vez que olho em seu olhos, enquanto observo suas mãos subirem aos meus ombros, enquanto observo seus lábios se aproximarem tão lentamente e cuidadosamente aos meus, enquanto minha concentração está única e exclusivamente no gosto doce e relaxante de seu beijo.
Desejo poder ficar ali pra sempre. Poder mergulhar no seu beijo, nos seus braços, nas suas palavras de conforto, no seu sorriso, desejo poder ouvir a cada segundo a sua risada, desejo poder finalmente te chamar de meu. Mas, de repente a idéia de que tudo é finito me toma. A idéia de que não existem alma gêmea, de que tudo é, e, sempre será uma simples coincidência. De que nada, absolutamente nada, durará pra sempre. Até eu e você. Preciso, quero, me precaver. Para o fim, porque tudo tem fim. E, é doloroso, sempre é. Sinto que já sofri demais, sinto que não posso me entregar por completo, sinto que preciso privar-me do sofrimento. Da dor, que nunca preocupei-me em evitar. Sinto a vontade de dessa vez fazer diferente.

Observo mais atentamente a paisagem enquanto ela volta a ser a vastidão da noite, e, depois muda para um clipe de vários momentos felizes que vivi, em que me entreguei verdadeiramente, momentos que me doeram no final, assim como tudo. Mas, que não deixaram de valer a pena. Vejo minha opinião mudando devagar, enquanto olho a vida por um outro ângulo. Entendo finalmente que não faz sentido me previnir da dor, me entregar pela metade, se fosse assim, nunca amaria a ninguém, por medo do sofrimento de vê-la ir embora, nunca sairia na rua, com medo do provável assalto a que estivesse sujeita, nunca teria amigos verdadeiros, com medo da dor de ser decepcionada por eles, ou, de decepciona-los.
A vida é uma só. Então, vamos viver ! Vamos sentir, tudo o que temos pra sentir. Vamos fazer, porque sempre haverá muito a ser feito. Que todos larguem o medo do sofrimento ! Que todos amem como se não houvesse amanhã, como diria Renato Russo. Que todos vivam uma vida sem frescuras. Que todos se entreguem por completo, em tudo o que fizerem, sempre. Porque privando-se do sofrimento, você priva-se também da felicidade. Ainda encarando o escuro, a vontade de correr pros teus braços e me entregar totalmente só aumenta. Sei que prefiro perder, e sofrer, do que nunca ter, do que nunca viver.
Júlia (: