Eram três horas da manhã, eu acabara de sair da balada com o novo garoto que estava pegando, provavelmente o último da noite. Ele beijava muito bem, tinha uma boa pegada, seu nome era Paulo, e, ele me fazia esquecer do conhecido sermão que levaria da minha mãe quando chegasse em casa. Eu não gostava muito da minha mãe. Na verdade, eu não era nem um pouco apegada a nada que envolvesse família. OK, tenho que ser sincera, eu não era nem um pouco apegada a ninguém, proibia a mim mesma de sentir afeto a quem quer que fosse. Não tinha amigos. Não que nunca tivesse tido, é só que, teve um tempo que tentei voltar a amar as pessoas, mas, desisti assim que vi minha melhor amiga morrer de overdose. Bom, pelo menos provou-me, mais um vez, que eu não posso amar a ninguém.
Fiquei assim depois que a vida levou meu pai, ele faleceu devido a um câncer. Eu resolvi que jamais faria o mínimo esforço pra compreender porque as pessoas vivem, já que, no fim de tudo acabamos como pó embaixo da terra, resolvi que faria o que me desse na telha, e, que a morte seria para mim, algo completamente inaceitável. Sendo assim, resolvi também que não amaria a ninguém que não fosse a mim mesmo. Para não ter que ver ninguém morrer. Acho que devo ter quebrado poucas regras dessa minha filosofia própria. Meu pai se foi quando eu tinha treze anos, desde de então, me rebelei. Confesso que hoje, me arrependo disso.

Eu estudava na escola pública ao lado da minha casa, havia sido transferida para lá no ano de minha morte, depois de ter repetido seis vezes a sétima série. Minha mãe não aguentava mais pagar mensalidades escolares. O que era de se entender. Eu pegava fácil os assuntos, nunca havia ficado em recuperação, até a sétima série. O ano da morte de meu pai. Resolvi que seria uma péssima pessoa na vida, o que incluia, não ligar para os estudos. Eu seguia uma regra básica '' A vida não foi boa comigo, porque eu haveria de ser com ela ? '' Eu também consumia drogas, desde de a maconha até o crack, meu caso não tinha mais solução. Eu também tinha sido internada algumas vezes, em todas essas, havia dado um jeito de fugir. Não era muito fácil pagar as contas que eu fazia com as drogas, mas, eu sempre dava um jeitinho. Pelo menos, até certo dia. Eu também bebia bastante. Não tinha hora para chegar em casa. E, havia sido presa uma vez. Enfim, nada disso me importava.
Era dia dois de fevereiro, três horas da manhã, eu estava devendo ao rapaz que me fornecia as drogas. E, eu sabia que corria riscos. Mas, como eu não tinha nada, não havia nada a perder. Então, eu também não tinha medo da morte. Não até morrer. Levei seis tiros. Três na cabeça, um no abdômen, e, dois no coração. Morri. Morri, e, nem senti dor. As pessoas formavam um roda em volta do meu corpo morto, todas assustadas, chocadas. Os assassinos haviam fugido. Levando consigo seu pagamento, a minha morte. Meia hora depois, o IML chegou. Passou-se mais meia hora. E, minha mãe finalmente recebeu a triste notícia de minha morte. Em quinze minutos, lá estava ela, inconsolável, desolada, culpando-se pelo meu fim. Com a certeza de que eu não há amava. Tentando buscar alguma informação sobre a morte de sua única filha.
Eu me senti culpada. Na verdade, eu me sinto assim, e, sei que sou. Eu a amava, e, agora era tarde demais para lhe provar. Eu havia acabado com a minha vida, e, em parte com a dela também. Tudo pela filosofia mais idiota que já existiu. Havia sido concedida a mim a vida, e, eu há desperdicei, joguei-a fora como algo meramente descartável. Eu destrui corações de pessoas que me amavam, e, que eu amava também, mesmo não sabendo disso. Só agora, eu entendia que meu pai não queria me ver assim. Que minha mãe era a melhor que existia, e, que, bem no fundo de minha essência, eu amava as pessoas. Eu tinha compaixão. Só a camuflava atrás, de drogas, bebidas, sexo e rock n' roll. Aqui estou eu, morta, insatisfeita, perdida, culpada, desamada, magoada, e, a culpa é exclusivamente minha. Eu me arrependo, e, é tarde demais. O tempo não volta, e, a vida é cruel. Planta-se o bem para colher-se o bem, eu não o plantei, e, obviamente também não o colhi. E, eu realmente desejo, que essa minha história jamais se repita.
Júlia (: