segunda-feira, 9 de maio de 2011

O penoso bullying bipolar.

Todos os dias era a mesma coisa. Ela acordava, ia para a escola atrasada para evitar o tumulto, sentava no fundo da classe, sem falar com ninguém, evitando ao máximo contato até com os professores. Fingia prestar atenção nas aulas para não chamar atenção, mas na verdade, ela estava atenta mesmo era em sua própria vida – ou o que podia ser chamado de vida -, em seu submundo interior. As poucas pessoas que a conheciam, podiam afirmar com certeza o quanto aquela garota fazia a diferença, o quão brilhante era sua mente. Era um talento desperdiçado, sem dúvidas. Ela via tudo em sua volta, e preferia esquecer e dizer que nunca tinha visto, ela sabia de coisas muito maiores do que sua idade, mas não tinha a chance de manifestá-las. Ela era um gênio esquecido pela sociedade.
Fora em um desses tristes dias em que ela o conhecera. Um garoto bonito, inteligente, genial como ela. Só havia um problema: Ele era popular demais. E é claro que ela via isso como um problema, afinal, quantas vezes teria que sair com ele sofrendo bullying de seus colegas para que um dia a aceitassem? Quantas vezes seria necessário fingir e fingir que não sentia nada, até que um dia o acúmulo explodisse e ela tomasse medidas drásticas para acabar com aquilo? Nunca soube quando começou o bullying, nem como as pessoas ficaram sabendo de seus problemas. Apenas foi para a escola nova, pronta para entrar num ano novo, e por onde passava, as pessoas faziam brincadeirinhas sem graça por causa de sua bipolaridade e TDAH. Já era bem difícil, antes disso, lidar com tudo sozinha, e tudo só piorou depois disso. Ela entrara em depressão, tomara remédios que não podia, pensando que tanto fazia se conseguisse sobreviver, como tanto fazia se ninguém iria sentir sua falta. E como se não bastasse, veio a bulimia, como consequência do bullying.
Quando ninguém estava vendo, ela apertava as costelas, sentindo um enorme prazer em saber que pelo menos estava dentro de um dos padrões que a sociedade impunha. Doía, doía quase mais do que a lâmina cortando seus pulsos – sim, ela conhecia a dor – mas depois da dor, vinha o prazer, a satisfação, e ela aprendeu a conviver com a dor para sentir o sabor da alegria depois. Um dia, ela estava saindo da escola, as lágrimas escorrendo incontidamente mais uma vez, e soube que precisava daquilo de novo. Era o único jeito, a única coisa que fazia sobreviver valer a pena, e ela já se tornara dependente. Correra para o beco mais solitário que conseguira encontrar em um raio de cem metros, largara a mochila de lado e sentara-se, concentrando todo o peso do tronco para cima nas pernas, apertando com força. E então, dedilhava as costelas, com mais força ainda, puxando a cabeça para frente, esperando vomitar. Foi aí que algo a fez parar. Nunca antes isso tinha acontecido. Nunca antes algo tinha sido importante o suficiente para fazê-la parar, mas foi o que fez ao ver o garoto de sua escola, largado na outra extremidade do beco, segurando um cigarro em uma das mãos e uma garrafa de bebida na outra, quase colada a cabeça que pendia. Não lembrava por quanto tempo ficara ali, o observando atentamente. Mas não falara. Nunca ousara falar com alguém que não fosse essencial desde que entrara na escola, e não seria agora que falaria. Depois do que achou tempo o bastante, levantara-se e apanhara a mochila, pronta para ir para casa, até que ele o deteve.
- Fique.
Ela voltara-se para ele, arriscando um tímido olhar, e depois de um pouco de silêncio, abandonara novamente a mochila e sentara-se de frente para ele, esperando que falasse.
- Eu não estou bêbado, não se preocupe – dissera, sorrindo.
Ela confirmara com a cabeça, a visão voltada para seus sapatos.
- Então, déficit de atenção, eh? – perguntara o garoto, parecendo interessado.
- Me desculpe – dissera ela, a voz rouca pela falta de uso.
- Pelo que? – respondera o garoto.
- Por estar ocupando seu tempo – ela respondera, com o tom de voz mais alto que ousou usar.
Ele soltara uma risada sarcástica.
- Então, eu sou o garoto mais popular da escola, só ando com o tipo de pessoa mais fútil que pode existir, estou com bebida e droga nas mãos, me queixando interiormente da vida que levo, e você pede desculpas por ocupar meu tempo?
Pela primeira vez em muito tempo, ela sorrira, e ele conseguira se encantar com algo realmente belo. Não fora um sorriso longo, e ela estava com a cabeça voltada para o chão, mas fora o suficiente para fazer o coração do garoto parar por um segundo.
- Sabe, não é fácil ser eu. Eu sei que pode parecer ridículo da minha parte, mas realmente não é fácil fingir gostar de sair com aquelas pessoas, sofrer por amizades falsas todos os dias, sentir um enorme vazio no peito toda vez que me dou conta do quão hipócrita é minha vida.
Houvera uma pausa.
- Acredito em você – respondera a garota, pela primeira vez levantando o olhar.
- Acredita? – perguntara ele, duvidando.
- Acredito. Mas por que você não para de sair com essas pessoas?
Houvera outra pausa, desta vez mais longa.
- Tenho medo da solidão.
Ela confirmara com a cabeça, entendendo.
- Ela não é muito legal.
Ele sorrira.
- Você tem bulimia.
A garota espremera-se. Aquele era o mais profundo segredo que possuía, com exceção, talvez, da automutilação, e sempre fora pessoal demais para comentar até com as pessoas de sua mais pura confiança. Mas por algum motivo, sentira que podia falar.
- É a única coisa boa na minha vida.
Ele erguera as sobrancelhas, mas não dissera nada. Ficaram ali, por mais um tempo, até que ela falou:
- Então, depois disso, voltaremos para nossas casas e esqueceremos tudo?
Ele a fitara com uma espécie de dor no rosto, como se fosse doloroso para ele esquecer, mas disse:
- Se assim preferir.
Com o coração em pedaços, ela dissera sim, e se despedira, vendo-o fumar. Sabia que não podiam mais se ver e se encontrar, mas sabia que ele morreria com seu segredo, não importava o quanto infeliz estivesse. Ele era diferente, e ela torceria para que o destino reservasse bons caminhos para ele, apesar de todas as vezes que sofrera por causa dele e de seus “amigos”. Sabia que havia muito mais por dentro de seu rostinho bonito, mas como todas as outras coisas valiosas em sua vida, guardaria isso em segredo, só pra ela.

Nayane.

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