quarta-feira, 13 de abril de 2011

Viagem mágica

             Ela estava sentada na parada de ônibus deserta que ficava bem ao lado de uma barraquinha, mais à vontade do que quase sempre, talvez, por conta da pouca quantidade de pessoas que passavam, e, porque não tinha ninguém além dela esperando o ônibus, colocou sua bolsa num acento ao lado do que estava, se apoiu nela, pesando os pros e os contras de se deitar ali mesmo, decidiu que não se deitaria. Em vez disso, pegou o surrado exemplar de Romeu e Julieta que tinha conseguido na biblioteca da escola, ela havia começado a ler há um dia, e, já se encontrava quase na metade do livro, esse era o tipo de leitura que ela considerava hipnotizante, e, no fundo sabia que sentia-se assim por qualquer tipo de leitura.  
             Observou o buzinar de um taxista um tanto quanto aguniado para que o carro à sua frente andasse, sentiu um pouco de raiva daquela situação, não havia necessidade de nada daquilo, mas, ao mesmo tempo tentou imaginar o motivo de sua pressa. Ela gostava de fazer aquilo, mesmo que ela ainda não tivesse percebido. Seus ouvidos doeram, e, o taxista permaneceu buzinando até que o carro à frente se movesse. Continuava estudando a maior quantidade de carros que pudesse, tentando imaginar como era cada pessoa que os dirigia, será que tinham família ? Será que eram pessoas boas ? E quanto a leitura, o que será que eles deveriam apreciar ? Se é que gostavam de ler. Viu através da leve película de um carro preto, que não sabia o nome, uma mulher um tanto quanto bonita, e, parecida com uma executiva, passar fio dental nos dentes, no curto tempo do sinal, quase que automaticamente ela imaginou como seria seu trabalho. E, riu da situação assim que o sinal abriu e o carro andou. Ela estranhou nenhum ônibus ter passado nos em média quinze minutos em que encontrava-se ali, depois daquilo, levantou-se e viu o primeiro ônibus desde de que estava ali, não era o seu, pôde notar assim que ele se aproximou, fez um esforço para olhar os passageiros, como de costume. 
              Viu um homem que deveria ter uns cinquenta anos, e, tinha a pele negra desgastada pela idade se aproximar, puxou sua bolsa para que o homem pudesse sentar, em silêncio, ele o fez. Ela tentou imaginar como deveria ser sua vida. E, pouco à pouco, ela foi notando que sempre fazia aquilo, descobrindo o que ela considerava um espécie de magia em andar de ônibus. Riu de si mesmo por aquilo. Não demorou muito, e, seu ônibus passou, como de costume, ela nem havia notado e teve que correr, semi-cerrar os olhos para tentar ler a placa que dizia o nome, um rapaz também negro, só que, um pouco mais novo que o da parada falou: 
           - É torrões. 
           Ela entrou. Passou o VEM na máquina, e, girou a catraca quase caindo em seguida com a freiada do motorista, as vezes, ela se irritava com aquilo, será que aquele homem nunca havia andando de ônibus como passageiro ? Ela tinha certeza que sim, então, provavelmente ele deveria saber como é ruim aquilo, e, de verdade, tinha vezes que ela pensava ser de propósito. Felizmente, o ônibus estava vazio. Ela sentou-se numa cadeira alta ao lado da janela, olhou à sua volta, e, abriu o livro, embora soubesse que podia até perder à parada, já que era bastante desligada pensou que um paragráfo não faria mal a ninguém. As paradas iam passando, e, ela observava as pessoas esperando o ônibus, imaginando novamente como seriam suas vidas. Essa era a magia... Não havia nada mais delicioso. Era como se você fizesse parte da vida de todo mundo, as vidas que você mesmo criava pra eles, narrador-observador de personagens da vida real. Em uma só viagem, um livro inteiro. Lembrou das vezes em que conheceu um pouco da real história de alguns passageiros, como aqueles pedintes. Era bem triste ouvir a história dos seus sofrimentos, e, do porque pediam. Lamentava o azar deles, pois ela sempre queria doar, mas, quando eles pediam, era justo o dia que ela não tinha o dinheiro. Imersa nas histórias que lia no rosto de cada um, ela o viu, olhos verdes, acompanhado de um amigo, estatura mediana, e, incrivelmente, não imaginava qual seria sua história, talvez porque estivesse imaginando o porque de ele estar olhando-a daquela maneira, com certo tipo de curiosidade, satisfação, admiração, e, sei lá mais o que, ela teve vontade de sorrir, e, o fez. Pediu parada. O que ela estava fazendo ? Sabia que aquilo não era nem metade do seu caminho, mas, queria descer. E, pela primeira vez, o fez, queria sentar ao lado daquele menino, e, ver o que lhe acontecia, pela primeira vez naquele dia ela ia se dar a chance de conhecer a história real de alguém. Não queria pensar em como aquilo era louco, apenas o fez. Não demorou muito depois dela sentar ao seu lado para que ele a abordasse : 
           - Ei  - Sua voz era grave, mas, passava uma boa sensação. 
           - Sim ? Você falou ? - Ela sabia que sim, mas, quis perguntar mesmo assim. 
           - Aham, como você se chama ? 
       - Lara. - Disse simplesmente, e, logo percebeu que não havia perguntado seu nome, quando o ia fazer ele disse : 
           - A propósito, meu nome é Caio. 
           - Quantos anos você têm Caio ?  
           - 15, e você ? 
           - 14. Que ônibus você vai pegar ? 
           - Qual você vai pegar ? - Em vez de responder, ele fez uma pergunta. 
           - Um que vá para o fim da caxangá. - Disse. 
           - Mas, torrões ia. Porque você desceu então ? - Ele não era idiota. E, ela deveria saber. 
           - Sério ? - Fingiu arrependimento. - Meu Deus, não acredito que fiz isso. 
      - Sério. Tudo bem, pelo menos serviu para nos conhecermos. - Ela sabia que ele acreditaria, ela tinha consciência de seus dons teatrais, e, os aplicava muito bem. 
           - Sendo assim, pegaremos Engenho do Meio. É meu ônibus. 
           - Isto é um convite ? 
           - Se você quiser que seja. 
           E, ela queria. Conversaram sem parar até que chegasse a hora dela descer, finalmente havia descoberto grande parte da vida (real) de alguém que via na parada, e, de alguma forma ela sabia que Caio era especial, havia algo na forma como ele falava com ela, como ele sorria, nas gentilezas que só ela via por trás das brincadeiras dele. Ela o resumiria em : Interessante. Não o amava, óbvio, mas, tinha confiança em marcar um segundo encontro, sabia que podia dar certo. Desceu do ônibus, e, foi andando para casa.  
          Da janela do ônibus, Lara sorria com sua imaginação fértil, e, a duvida cruel : '' Será que teria acontecido assim se eu descesse ali ? '' não lhe saia da cabeça. Desejou voltar no tempo, e, poder saber de verdade quem era o menino de olhos verdes que havia lhe olhado daquela maneira, seu verdadeiro nome, e, seu jeito. Mas, talvez, essa seja a magia de não saber, imaginar, o que ela tinha feito muito, e, não só hoje, mas, todos os dias em que viajara da escola para casa no lotado, ou não, ônibus. 




Júlia (:

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