quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Para Maria da Graça.


"Agora, que chegaste à idade avançada de 15 anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas.
            Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.
         Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca.
         Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: "Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?"
         Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. "Quem sou eu no mundo?" Essa indagação perplexa é o lugar comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.
         A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: "Estou tão cansada de estar aqui sozinha!" O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas, nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados conseguem abrir uma porta bem fechada e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece geralmente às pessoas que comem bolo.
Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser séria ou profunda.
A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: "Oh, I beg your pardon!” Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo para a tua sabedoria de bolso: se gostas de gato; experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: "Gostarias de gatos se fosses eu?”.
Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os corredores chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: "A corrida terminou! mas quem ganhou?" É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não conseguirá saber quem venceu. Para o bolso: se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde queres, ganhaste.
Disse o ratinho: "Minha história é longa e triste!" Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: "Minha vida daria um romance". Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois um romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: "Minha vida daria um romance!" Sobretudo aos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: "Devo estar diminuindo de novo". Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.
E escuta esta parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida toda uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. Mas como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom-humor. Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de sofrimento ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago,  pensava: "Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas".
Conclusão: a própria dor tem a sua medida. É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça."

(Paulo Mendes Campos).

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Lovesick.

Bastaram segundos para que milhares de pensamentos acolhedores passassem pela mente dela. Por um breve momento, ela não soube o que dizer, ou como agir. Só conseguia sentir os batimentos de seu coração, levados no ritmo de uma sensação tão forte e deliciosa que daria uma canção.
Ela reconheceria aquele toque entre milhões. Sentira tanta falta dele! Tanta saudade daquele abraço apertado, daquele seu jeito macio de dizer o que ela sabia ser mentira, mas que gostava de acreditar. Podia ouvir o embaralho da sua mente, a contradição que virara.
Tudo o que não queria era afastar-se e sorrir simpaticamente antes de continuar caminhando, mas foi exatamente o que fez, mesmo com sua cabeça a mil por hora. Não podia mentir pra si mesma a ponto de falar-se que não tinha sido bom. Tinha sido muito mais do que isso. Tinham sido os dez segundos mais prazerosos que tivera em tempos, apesar de terem sido só dez segundos. Iria pra casa com o sabor da felicidade instantânea em seu coração, o sorriso automático nos lábios todas as vezes que, mais tarde, lembrasse daquele momento.
Porque aquele momento, mais do que nada nos últimos meses, tinha trazido à tona todas as lembranças boas, todas as recordações e sorrisos maravilhosos que estavam escondidos numa relação antiga, acabada simplesmente por ser um elo tão traiçoeiro.

Nayane.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Restrições e desilusões.

          Sabe que eu me acostumei, no final? Me acostumei com a partida, com uma rotina sem ti, com a falta de alguém que me fizesse ir ao topo e ao chão em minutos. Me acostumei com um celular sem teu número na agenda, me acostumei com não ter esperanças em te esperar.
         Mas sabe com o quê eu ainda não me acostumei? Com esse buraco imenso que se contrái todas as vezes que eu lembro que eu não devia ter me acostumado com nada disso, se tudo tivesse dado certo, e quando eu lembro de todas essas coisas que nem constavam nos planos e hoje são bobagens corriqueiras.
            Não me acostumei ainda com a ideia de tu não ser mais parte da minha vida, só de mim. Uma parte esquecida de mim, abandonada. Que eu sinto falta todos os dias, até das piores partes dela, mas sabe o que é? Não ia valer a pena. Simplesmente não ia.

Nayane.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Como flocos de neve.

          Eu posso lidar com isso. Tenha calma, respire, você pode lidar com isso. É só medo e arrependimento. E um pouco de decepção. Concentre-se, você já passou por isso antes, certo? Certo. Eu sei que foi duro pra caramba, mas você consegue vencê-la de novo. Ela, a angústia, a raiva, a saudade e a tristeza por si só.
          Você é forte. Não, não, NÃO, por favor, não chore. Isso só vai piorar as coisas. Não, você também não pode comer. Você é mais forte do que isso, eu sei. Não deixe que as lágrimas expressem o excesso de sentimentos ruins que teu coração guarda. Não deixe-as te revelar, não deixe-as te consumir... Oh shit, man.
         Eu sou tão cretina. E tão estúpida. Oh Lord, eu sou tão fraca. Tão, tão, tão fraca. Tão ingênua e babaca, tão idiota a ponto de acreditar, e acreditar de novo, idiota a ponto de magoar quem não merece e ser cretina o suficiente para não sentir a mínima culpa e agir como se estivesse certa. 
         Eu não deveria poder chorar. Eu deveria poder apenas me desligar, me sentir livre por algum pouco tempo, mas tempo o bastante para que eu esquecesse e me desapegasse de todos esses terríveis sentimentos.
          Mas eu sou fraca demais para qualquer coisa, e eu devia só ficar aqui em volta da minha derrota e das poucas obras que eu construí e destruí, vendo-as se dissolverem no ar, assistindo minha própria fragmentação, irrelevante, fraca, como era de se esperar.

Nayane.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Autocontrole, liberdade e todas essas coisas que eu não tenho.

        Queria ter novamente o poder de controle sobre mim mesma. Decidir o que sentir, o que fazer, quem amar. Sentir aquela sensação gostosa de liberdade outra vez. Como um frenesi interrompendo todo e qualquer mau presságio que eventualmente tenho.
     Hoje tudo isso se tornou só mais uma indiferença. Como se realmente houvesse várias coisas mais importantes. 
         Como se o que eu considero importante não importasse mais.
         Então eu tenho essa sensação de irrelevância e impotência. Ela torna tudo ainda mais complicado. Preciso ouvir e aceitar as pessoas me dizendo o que é certo quando tudo o que quero é a familiar sensação do vento acariciando-me os cabelos, da areia tocando-me os pés, do barulho relaxante das ondas que quebram no mar e principalmente, da sensação de coração sereno, tranquilo, livre. Da sensação de que eu posso domar meu futuro, que eu posso planejar e que eu posso me dar bem com meus planos, independente do que as pessoas vão achar deles. Quero sentir que eu realmente posso ir longe, independente de quantas pessoas estarão de prontidão para tentarem me derrubar. Porque, a sensação de poder sobre mim mesma, é tudo o que eu peço agora. 


Nayane.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Loop de viver.

          Minhas lembranças me atormentam. Me fazem ter raiva do mundo, raiva de mim, raiva da vida. Me fazem achar cem por cento de tudo injusto. Me fazem sentir saudades do que eu não devia sentir saudades. Me fazem odiar o quanto já fui burra, hipócrita, insolente, e cretina. Me fazem odiar várias fases do que eu já fui.
           Minhas lembranças me alegram. Me fazem lembrar de que já fui feliz, de que as simples coisas sempre foram prioridade em minha vida, de que eu já fui absurdamente amada por pessoas que mereceram a reciprocidade do sentimento. Me fazem sorrir, gargalhar, querer voltar no tempo, não para mudá-las, mas para revivê-las.
          Me fazem perceber que a sanidade e a insanidade andam juntas. Que o certo anda com o errado. Que os erros andam com os acertos. Me fazem perceber que, nem tudo que fiz e que passei me agrada, mas que a vida é um constante e (in)finito loop de aprendizado, conhecimento, felicidade e confusão, e que, cá entre nós, se ela não fosse minimamente constrangedora, não seria ela.


Nayane.