quinta-feira, 21 de julho de 2011

Belas velhices.

          Havia um quê de monotonia naquela sala, tão pequeno e quase insignificante, mas era o bastante para dominar o ambiente. Escutava o tic-tac do relógio, o tempo todo, sem parar. Me acostumei a suas pequenas pausas. Acidentalmente, percebi que as acompanhava com o pensamento. Não sei quanto tempo fiquei ali, tão imersa em pensamentos que não conseguia pensar em nada além das pausas do relógio. Mais uma vez, tentei ocupar minha mente com outras coisas. Levantei-me, e andei devagar em direção a cozinha. Quem sabe assim o tempo não passasse mais rápido? Mas não passara. Quando cheguei a cozinha, não sabia o que fazer, assim voltei para a sala, só para me frustrar descobrindo que não tinha passado meio minuto. Puxei um dos livros da estante, sem nem prestar tanta atenção ao título. Só queria uma distração. Também não sei quanto tempo tive de ficar ali, lendo a mesma linha, sem perceber, tentando absorver qualquer tipo de conteúdo que estivesse ao meu alcance, sem conseguir um mero entendimento. Joguei o livro de lado. Aquele tédio já estava me corroendo por dentro. Fui até a cozinha e tomei um longo gole de café. Eu nunca gostara muito de café. Na verdade, sempre odiara. Mas, aquela altura, qualquer coisa que pudesse significar algo de diferente no meu dia, seria de bom tamanho. Ainda mais se esta pudesse me dar mais energia.
          Então, abri a porta e saí de casa. Senti a leve brisa roçar meu rosto e desembaraçar delicadamente meus cabelos trançados. A sensação tirou um pouco do peso da insignificância sobre mim. Comecei a caminhar, embora não tivesse nenhum destino. Gostei disso. Sabe, de andar sem rumo, sem fazer planos, só para observar as alegres vidas das crianças que se reuniam ali ocasionalmente para brincar. De repente, senti um aperto no peito. Um aperto que afundava mais e mais a cada segundo em que eu as olhava. E quando eu vi uma das garotinhas, que deveria ter uns cinco ou seis anos de idade, sorrir alegremente, foi como se o mundo não existisse mais, e só existisse o sorriso puro daquela menininha, despreocupada, sem a menor ideia do que a vida e o mundo aguardavam para ela. O aperto em meu coração intensificou-se, e, com um leve sobressalto, entendi o que ele significava. Sentia saudades. Saudades imensas daquele tempo, em que a minha única preocupação era correr mais rápido do que os outros para não precisar ser o "pega", e a minha única meta era me divertir e fazer o máximo de brincadeiras que minha capacidade permitisse. E senti mais saudades ainda quando vi a pequena sorrir. Há quanto tempo não sorria daquela maneira? Muito, muito tempo. Provavelmente, a mesma quantidade de tempo em que não precisava me responsabilizar por nada que não fosse trapaça no esconde-esconde. Não conto exatamente como era aquele sorriso, porque qualquer coisa que eu diga, não vai ser mais do que um terrível eufemismo.
          As crianças agora se reuniam para brincar de cabra-cega, e, sabendo que pareceria estranho se continuasse a observá-las daquela forma, continuei caminhando, embora relutante. Entretanto, meu tédio passara. Foi um pouco engraçado como, de uma hora para outra, meu dia ganhou um brilho intenso, e eu senti-me muito mais revigorada. Ainda andava sem rumo, ainda gostava daquilo. Encostei-me numa barraquinha velha e suja, de aspecto precário, com o objetivo de sentar-me nas cadeiras diante dela e tomar alguma coisa. Quem sabe, até fumasse algum cigarro. A ideia me parecia deliciosa; há quanto tempo não colocava um deles na boca, só porque me achava jovem demais? De fato, era. Mas hoje, não queria obedecer a regras. Hoje, queria viver intensamente, como a menininha que deixara para trás. Não me leve a mal: Eu não era sempre assim. E nem queria me viciar em cigarros só para ter alguma motivação naquela vida de trestálio, apenas achei que, ser inconsequente uma vez na vida, não poderia me fazer mal nenhum. Ninguém viera me atender, mas não me importei. Sentei-me em uma das precárias cadeiras de plástico, e fiquei defronte da rua, observando as pessoas sairem e entrarem em suas casas, observando suas expressões, suas conversas, suas roupas. Mas foi um casal que me chamou a atenção.
          Um deles era uma senhora gorducha, que usava vestes gastas e um cocó no alto da cabeça. Me lembrava estranhamente uma típica vovó de filme americano. O outro era um senhor, de vestes igualmente velhas, careca reluzente e aparência um pouco doentia. Mas não era nada disso que me chamava a atenção: era o modo como eles dois se olhavam, riam um para o outro, cheios de amor e atenção. Isto também me parece um eufemismo, por agora. Eles tinham algo mais. Era quase inacreditável o modo como agiam, como se um realmente completasse as frases do outro, o sorriso, os gestos. Era um carinho o qual nunca presenciara em casa, pois meus pais se divorciaram há muito, e não me lembro de muita coisa antes disso. Foi simplesmente fantástico presenciar aquela cena. Levantei-me da cadeira, maravilhada, e tentei me aproximar um pouco mais. Foi aí que o senhor começou a tossir. Tossir muito. Em meio a sua tosse, pude acompanhar o desespero da vovó, que parecia incapaz de tomar qualquer providência para ajudá-lo, com o impacto do choque. O velho tossia sangue. Sua pele começava a empalidecer, e embora ele tentasse ao menos apoiar-se, não parecia ter força o suficiente.
          Não sei bem o motivo que me levou a correr desesperadamente para ele e tentar colocá-lo de pé e firme, mas foi a única coisa que consegui fazer na hora. A cena daquela pobre velhinha chocada ao vê-lo enfraquecer foi o que bastou para fazer com que eu corresse até eles, e batesse de porta em porta chamando algum vizinho que pudesse nos levar ao hospital, até encontrar uma alma caridosa que se dispôs a nos ajudar.
          Ainda lembro de cada terrível detalhe. Da minha apreensão, do carona, e da senhora, que mais tarde descobriria se chamar Ana. O nervosismo pairava sobre a sala, e aquele sorriso que vira mais cedo na garotinha parecia uma lembrança velha e distante. De vez em quando, a velha sorria para mim, fosse para agradecer ou me confortar eu já não sei dizer. Não conversamos muito. Então, um homem de cabelos grisalhos e jaleco branco entrou na salinha para nos informar que era tarde demais. 
          A cena foi de partir o coração. A dor expressada no rosto dela, a indignação mascarada em soluços. Eu já adorava aquela senhora, já adorava a capacidade com a qual ela podia amar e expressar-se. Ela me abraçou por alguns instantes, murmurando agradecimentos soltos. Então ela pediu para vê-lo. Entrou na sala ainda embargada, e, espiando somente pela janelinha, vi o mesmo amor de mais cedo em seus olhos. Puro amor. Porque ela ainda se lembraria dele, ainda o desejaria, e, quando a saudade ameaçasse corroê-la, ela ainda teria as boas recordações de amor para alimentá-la. 


Nayane.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Born for this.

          Acendeu o milagroso cigarro como se disso dependesse sua vida, tamanha era a ânsia de sentir aquela maravilhosamente atordoante sensação dominar-lhe o cérebro outra vez, na esperança de que aquilo a dispersasse um pouco da dor que cavava seu peito.
         Já era tarde da noite, e o pequeno e abafado aposento era fracamente iluminado pela luz do abajur, e, obviamente, da pontinha de seu cigarro. Estava escorada no parapeito da janela, olhando a rua deserta e também mal-iluminada que parecia bruxulear em meio a escuridão. Mas aquilo não a assustava. Gostava do silêncio e do sossego, da noite e a maneira como todas as coisas importantes ocultavam-se nela. De qualquer forma, tinha coisas mais preocupantes em mente.
          Não conseguira dormir aquela noite. Tentara de tudo, sem sucesso; Sua mente a incomodava. A perturbava por um tempo que parecia durar anos, num cansativo conflito interno, até que vencesse e se apoderasse de todo o resto, embriagando-na com lembranças e relembrando-a cada detalhe importante, cada dolorida sensação. Mas ela não choraria. Aquilo seria demais para sua mente, outrora tão astuta. Depois de algumas resistências, pegara a única unidade de cigarro escondida em sua meia mais antiga e envolvera nela um surpreendente significado.
          A frágil chama depositada do esqueiro para ele, era o puro reflexo da pequena esperança que ardia dentro de si. A continuidade de sensações doentias e incríveis do conteúdo quando consumido era como uma continuidade de seus atos inconsequentes e contraditórios, causados pela esperança, na busca pela libertação de sua alma. E, por fim, a fumaça que emanava de seus delicados lábios a cada baforada representava o resultado de uma árdua batalha. No final, só o que restaria seria um breve borrão transformado em absolutamente nada. 
          E o cigarro diminuía a cada reflexão, quase como se concordasse que em toda sua existência, apesar de toda a esperança cativada, apesar de toda a dor em busca da paz, acabaria servindo apenas para amenizar uma dor que voltaria a existir assim que se transformasse em pó. 

Nayane.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Ela.

       Nós discutíamos algumas vezes. Os ciúmes e as saudades chegavam a um ponto tão alto que o único jeito de irmos em frente era os disfarçando com agressividade. Atirávamo-nos palavras medíocres por algum tempo, e então, quando uma se feria, a outra só podia chorar com ela e confortá-la.
      Não pessoalmente, é claro. Era a única coisa que odiava em nossa relação: Eu nunca podia secar-lhe as lágrimas, apenas ouvir seu soluço, e indescritivelmente senti-las rolar sobre sua face manchada. Ou talvez fosse só minha imaginação.
       Todo aquele tempo eu achei que devesse compensar toda minha ausência protegendo-a. Esforçava-me para parecer-lhe o mais madura possível, tentava dar-lhe os conselhos mais inteligentes, fazia-a entender seus erros para que não pudesse repeti-los. Ela era a única pessoa com quem eu gostava de me preocupar mais do que a mim mesma.
        Ela estava sempre me surpreendendo. Ora ignorando tudo o que tentava lhe dizer, ora implorando-me ajuda. Eu adorava ajudá-la. Apenas porque os conselhos, os consolos, eram a única maneira que poderia fazer-me sentir realmente ao seu lado, não porque ela fosse fraca. Oh, não, ela não era fraca. Dentro de toda aquela capa de dúvidas e incertezas, havia um livro folheado de escolhas, sonhos, inteligência, talento e capacidade. Mas ela preferia julgar-se pela capa; ela, mais do que ninguém, sabia de toda a realidade, mas não queria encará-la.
     Deus, ela me preocupava. Queria abraçá-la por horas, enquanto chorássemos apenas porque podíamos agarrar-nos a emoção da outra, em meio a alegria e consolo. Eu a ensinei muito. Sei disso. E também aprendi muito com ela. Eu a amava, e sabia reconhecer cada qualidade responsável por isso. E, na calada da noite, enquanto todo o meu corpo doía, pela necessidade do brilho daquele sorriso outra vez, pela necessidade de protegê-la até o fim dos mundos, perguntava-me se era realmente ela quem precisava de meus abraços e proteção.

Nayane.