terça-feira, 30 de agosto de 2011

Porcaria de desespero.

Observou-o atentamente, antes que não pudesse mais fazê-lo.
Seus olhos continuavam a brilhar daquele jeito que mostrava simpatia e ao mesmo tempo, uma autoconfiança excessiva, numa negridão que ela tanto adorava. Todos os traços do seu rosto continuavam perfeitamente esculpidos - exatamente como ela lembrava. Ou talvez... Não, aquilo seria impossível, pensara. Mas seu pensamento se contradisse assim que ele sorriu e olhou-a com afeto. Será que era possível que ele estivesse mais belo?
Como sentira falta daquele cabelo, daquela cicatriz que ninguém nunca reparava, daquelas curvas labiais que de tão perfeitas pareciam provocá-la! Vê-lo era como reacender uma chama dentro de seu peito, uma chama que a muito tinha se apagado. Era trazer de volta uma tonelada de lembranças. E, naquele momento, surpreendentemente só conseguia pensar nas boas lembranças.
De como tinha sido o último dia. De como eles se encontraram de um jeito tão meigo e tranquilo, de como ela dissera que precisava ir embora, com o pensamento de que em breve criaria coragem para finalmente fazer o que queria. Lembrou de que, mesmo meses depois, evitara até usar aquela roupa, com medo de que lhe trouxesse azar. Mas agora, aquilo não fazia sentido nenhum. Ela era muito feliz com ele. Certo?
Os olhos profundos a encarando, os dedos delicados tocando-lhe a face, tudo aquilo tornava-a confusa demais para que pudesse lembrar-se: Por que, exatamente, precisava sentir ódio dele? Mas ela sabia que sentia. E, talvez, soubesse exatamente o porquê. Talvez, o ódio só estivesse se escondido para bem fundo do seu peito, adiando o momento em que precisasse estragar sua felicidade.
Ela sabia que não poderia ser felicidade. Já sentira aquilo antes. Era uma euforia magnífica, indescritível. Mas a dor também estava ali. Ela nunca a largara. Ela estava ali para lembrá-la do impossível, para fazê-la lembrar do que precisava – mas não queria – lembrar. Ela estava ali para estragar tudo, e melhorar tudo. Não era da dor que ela sentia medo. Com a dor, ela havia aprendido a lidar. Era do que vinha depois.
Ela sabia que quando ele abrisse a boca, sairiam palavras vazias. E sabia que acreditaria, talvez porque acreditar não fosse doloroso como seria se as questionasse. Sabia que ele a chamaria de apelidos criados e adotados por si mesmo, sabia que se acharia a garota mais sortuda do mundo, até descobrir que não era a única a quem isso acontecia.
Mas ela gostava dos apelidos que ele inventava. Na verdade, ela era composta por um eterno conflito interno entre o que não deveria gostar nele e as poucas coisas que tinha razão em desaprovar. Não era como se ele não tivesse qualidades... Oh, esqueça, ele era mesmo um hipócrita nojento.
Só que era difícil acreditar nisso quando lembrava de tudo o que haviam passado juntos, do quanto confiara nele, do quanto o amara, do quanto o quisera bem. De como sofrera quando ele se fora. Era difícil querer o mesmo a qualquer pessoa, ainda que essa pessoa fosse ele. 

Nayane.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Passado. Saudade. Inferno.

          Sente-se, por favor. Isso. Quer uma xicára de caf... Oh, sim. Você não toma, desculpe. Nesse caso, pegue um copo de refrigerante, se quiser. A cozinha fica... Bem, você sabe. Agora, seria pedir muito que você me desse um pouquinho de atenção, sir?
          Oh, eu esperava que não. Quero dizer... Depois de todo esse tempo? Veja, era de se esperar que eu sentisse sua falta. Afinal, foi uma redução considerável de afinidade, essa nossa. E para não falar do tempo que a gente passa até nos rever.
            Tenho que admitir: Dói. Muito, na verdade. Mas, o que eu queria? Fingir que anda aconteceu? A propósito, pare com isso. Sério. Eu não aguento mais ter que selecionar as partes mais chatas da minha vida pra te contar só porque elas são as únicas que não vão machucar nenhum de nós dois quando proferidas. Eu gostaria muito de simplesmente poder conversar sobre isso; sobre tudo, ao invés de explodir tudo para mim mesma, numa avalanche de lágrimas, quando a saudade bate tão forte que não dá pra controlar.
          Eu não sei dizer do que mais sinto falta. Sinto falta das nossas conversas corriqueiras; da sua preocupação; de como você sorria quando via um programa que ambos assistíamos por pura diversão; de como eu não me lembro de nenhuma vez em que o tempo demorou para passar; em todos aqueles dias. Sinto falta de tudo.
          Agora, por favor, largue esse copo e me ouça: Eu queria ter dado mais valor a todos esses detalhes, porque hoje, onde eles estiveram e você deveria estar, há um grande buraco cheio de remendos ineficazes.


Nayane.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Floresta perigosa, e ainda mais perigosos meus pensamentos

            Para onde foi minha inspiração? Onde moram os dois olhos cor de mel que eram o brilho dos meus um tanto quanto negros? Sei que eles ainda estão perto, mais perto do que poderiam. Mais não são dotados da fascinação que antes eram. Minha mão não sua mais oa vê-los, e isso me entristece tanto. Que estranho, não sinto meus dedos nervosos para escrever-te algo. E nem tenho uma vontade súbita de abraçar-te. Olha, veja só, eu não quero alisar teus cabelos quase loiros. E eu não sorrio mais quando te vejo. E as palavras não me faltam na hora de falar-te alguma coisa. Em compensação, eu sinto um vazio no lugar em que meu amor morava, era uma casa simples, fraca, e eu sabia que ela cairia, só não sabia que levaria-me palavras, inspiração e um pedaço de mim. Traduzo o vazio em algo que lembra-me amargura. Preciso encher de alegrias o lugar onde mora um eu amargurado. Ó, olhem, lá vai o meu amor numa correnteza de ilusões num riacho que corta uma floresta perigosa de alguns tristes sentimentos. Preciso lhe dizer, o amor pode trazer felicidade, ou doer bastante, uma ferida aberta, mas, de tão lindo que é, até a maior ferida inspira, salva, preenche, e é melhor que viver sem nada.


                                                                                                          Júlia (:

sábado, 6 de agosto de 2011

Corredeira.

          Eu confiaria em ti a minha vida. Eu achava que te amava acima de tanta coisa, quando não passava da velha paixão. Eu achava que te teria para o resto da vida, que poderia te abraçar sempre com a mesma boa aura a nos cercar, a aura da amizade em sua forma mais pura.

          Pausa. Silêncio.

          Eu tinha me entregado a ti, te exposto meus pontos mais fracos e meus segredos mais profundos. Gargalhadas eternas, abraços assíduos. Mas tudo aquilo tinha parado, como se o tempo pudesse tê-los congelado só para brincar comigo. O que estava havendo? Guerra? Confusão? Mágoa?

          Pausa. Percepção.

          De repente, tudo parecia se encaixar. Teu sorriso não era como os outros, tuas histórias eram mais interessantes do que todas as outras juntas. Eu sabia, no fundo eu sabia, que embora fosse repugnante devido as circunstâncias, meu amor era verdadeiramente amor.

          Pausa. Revelação.

       Tu tinhas meus sentimentos mais profundos nas mãos, e os arremessastes como uma bolinha de papel. O apego pra ti era desnecessário; eu já não era mais necessária, afinal. E assim tu me machucaste, e a machucastes, e eu a machuquei. Como um ciclo vicioso enraizado na dependência. Como uma deplorável droga.

          Pausa. Mais bolinhas.

          Cada gota das minhas lágrimas, cada uma delas era apenas mais uma coisa para você arremessar. E cada uma das lágrimas dela, não importava para você. E o beijo dela, e o choro dela, e minhas lamúrias, e meus sentimentos, eles também não importavam para você.

          Ma-tu-ri-da-de.

          Não pense que eu esqueci de tudo. Eu lembro-me bem daquele outro eu, e daqueles dias, e daquelas lágrimas. Mas eu lembro-me num misto de decepção, ódio, saudade e nojo. São coisas que quero apagar, as quais quero apartar, tirar de mim, arrancar dela. Coisas que só o tempo me fez capaz de entender, sentimentos que estavam fincados tão dentro de mim que foi preciso muito tempo para que todo o pó fosse retirado, e a mágoa fosse diminuída, e as feridas cicatrizassem, para que eu pudesse entender. Erros. Erros que eu não faria. Não novamente.

Nayane.