Observou-o atentamente, antes que não pudesse mais fazê-lo.
Seus olhos continuavam a brilhar daquele jeito que mostrava simpatia e ao mesmo tempo, uma autoconfiança excessiva, numa negridão que ela tanto adorava. Todos os traços do seu rosto continuavam perfeitamente esculpidos - exatamente como ela lembrava. Ou talvez... Não, aquilo seria impossível, pensara. Mas seu pensamento se contradisse assim que ele sorriu e olhou-a com afeto. Será que era possível que ele estivesse mais belo?
Como sentira falta daquele cabelo, daquela cicatriz que ninguém nunca reparava, daquelas curvas labiais que de tão perfeitas pareciam provocá-la! Vê-lo era como reacender uma chama dentro de seu peito, uma chama que a muito tinha se apagado. Era trazer de volta uma tonelada de lembranças. E, naquele momento, surpreendentemente só conseguia pensar nas boas lembranças.
De como tinha sido o último dia. De como eles se encontraram de um jeito tão meigo e tranquilo, de como ela dissera que precisava ir embora, com o pensamento de que em breve criaria coragem para finalmente fazer o que queria. Lembrou de que, mesmo meses depois, evitara até usar aquela roupa, com medo de que lhe trouxesse azar. Mas agora, aquilo não fazia sentido nenhum. Ela era muito feliz com ele. Certo?
Os olhos profundos a encarando, os dedos delicados tocando-lhe a face, tudo aquilo tornava-a confusa demais para que pudesse lembrar-se: Por que, exatamente, precisava sentir ódio dele? Mas ela sabia que sentia. E, talvez, soubesse exatamente o porquê. Talvez, o ódio só estivesse se escondido para bem fundo do seu peito, adiando o momento em que precisasse estragar sua felicidade.
Ela sabia que não poderia ser felicidade. Já sentira aquilo antes. Era uma euforia magnífica, indescritível. Mas a dor também estava ali. Ela nunca a largara. Ela estava ali para lembrá-la do impossível, para fazê-la lembrar do que precisava – mas não queria – lembrar. Ela estava ali para estragar tudo, e melhorar tudo. Não era da dor que ela sentia medo. Com a dor, ela havia aprendido a lidar. Era do que vinha depois.
Ela sabia que quando ele abrisse a boca, sairiam palavras vazias. E sabia que acreditaria, talvez porque acreditar não fosse doloroso como seria se as questionasse. Sabia que ele a chamaria de apelidos criados e adotados por si mesmo, sabia que se acharia a garota mais sortuda do mundo, até descobrir que não era a única a quem isso acontecia.
Mas ela gostava dos apelidos que ele inventava. Na verdade, ela era composta por um eterno conflito interno entre o que não deveria gostar nele e as poucas coisas que tinha razão em desaprovar. Não era como se ele não tivesse qualidades... Oh, esqueça, ele era mesmo um hipócrita nojento.
Só que era difícil acreditar nisso quando lembrava de tudo o que haviam passado juntos, do quanto confiara nele, do quanto o amara, do quanto o quisera bem. De como sofrera quando ele se fora. Era difícil querer o mesmo a qualquer pessoa, ainda que essa pessoa fosse ele.
Nayane.
